sexta-feira, 6 de novembro de 2009


HOMICÍDIO CULPOSO


não, eu não vou te matar com um tiro na nuca (não vou chegar tão perto), não vou jurar que você era a única (mas sem ser indiscreto), que me traía (e que eu sabia), não vou dizer que mais nunca irei amar alguém (sou infeliz mas não sou louco ao ponto de ficar maluco).
não, eu não sou de matar assim, nem me vingo do amor mal amado com ciscos de lâminas ou chumbo grosso. sou daqueles que se acalmam mas nunca se esquecem. sou um cara que deixa sua marra pra depois, quando você menos esperar: surpresa má.
sou uma criatura sem mágoas mas com um senso de justiça pouco peculiar, principalmente ao poder público judiciário, notóriamente injusto e ineficiente. sou uma pessoa que te quer dente por olho, fio por pavio, rente por pentes de metralhadoras no teu coração, teu coração sempre ardente.
não, eu não escrevo só pra te matar. quero te assassinar de outro jeito, acho que você merece maiores requintes de torturas e sacrifícios, para ver esse amor morrer. para ver nesse amor quem mente, quem é cleópatra e quem é serpente. a mim me apetece um homicídio cheio de resquícios, indícios palpáveis e psicológicos, parapsicológicos, prenúncios cólicos não lógicos, enxurradas de pistas encriminatórias que tem o amor como vítima.
não, eu não te enterro assim, simplesmente, apedrejada e basta? não, quero mais ferros em brasas e tridentes, preparo a cova rasa e as iscas para os roedores e as moscas, não há de restar nem casca das suas sementes. sou do clã dos ingênuos homicidas, dos homens bombas feéricos, dos camicases coléricos, dos suicidas macambúzios que só se finitam após liquidarem muitos.
é um custo te esperar morrer. em mim. é como se nunca tivesse fim a hora agônica entre a tarde e a noite, é como se fosse um eterno e brusco lusco-fusco.
eu nem te queria dizer que dói, nem queria te lembrar que tudo isso se passa a sós.
eu nem te queria mais viver ou matar ou morrer ou renascer. Mas olha o que fiz!: ignóbia tentativa de transformar giz em sangue, otária ardileza que pretende comungar hóstia e mangue, obtusa violência que só fere a quem mais se quer ver incólume.
nem te queria mais, no entanto ainda te carrego em minha alma pobre.
você me sobra e por isso eu sossobro.
e não quero saber de dicionários, as línguas que me lambem me aportuguesam e abrasileram todos os mais íntimos sentidos.
só não vou te matar agora porque você, na hora aghá, me dobra.
até amanhã!

marco/06.11.2009.

Um comentário:

  1. Que coisa, poeta! Largue esse vício temático! Libere a mulher que escolheu como vítima do seu amor. Liberte-se! Sua poesia e seu espaço podem ser muito maiores.

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