quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

















CONDOMÍNIO

preciso aprender coisas simples:
mentir com humildade,
trepar sem amor,
dever para ter crédito.


porque com arrogância
a mentira não convence;
porque basta um pouco
de tesão
para preservar a espécie;
porque sem ter
o que me cobrar
você me esquece.

preciso treinar coisas óbvias:
dia e noite, nascer e morrer,
frio e calor, solidão e multidão,
achar, lembrar, perder e esquecer.


e no final da ata,
o que ocorrer.

marco/05.01.2010.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010


AMAR É RAMA

Desde sempre coleciono versos, trechos, poemas, daqueles arrebatados de amor ou paixão, de sentimentos em combustão de si mesmos. Um amigo me disse que sou um irrecuperável romântico preso em um tango sem final, em um bolero desmedido demais para ser verdade. Mas é fato que desde sempre me remoo nas lembranças dessas orações, essas frases, essas palavras que me agradam e sensibilizam as retinas e os olhos, os poros e a pele, os ossos e suas articulações, os pavilhões e os ouvidos, as papilas, língua, garganta, traqueia e tudo mais que vem abaixo, ou ao lado ou à frente, nesse caminho entre os sete buracos da cabeça e outros mais recônditos porém não reticentes.
Desde sempre seleciono amores e paixões em escaninhos estanques da vida. Se alguns se parecem ou tem alguma sintonia entre eles e elas, outras e outros nem espelham que se referiam a mesma minha pessoa. Mas nada como o olor e o sabor de uma embriagadora ilusão para trazer luz, mesmo por instantes, àquele desgraçado coração. Nada como o nunca para suscitar promessas de alguma, naquele desgarrado coração.
Desde sempre tenho o olhar lince para olhos fulminantes, coxas grossas, sorrisos gratos, saias justas, mocotós graúdos. Qualquer lance às vezes torna-se o portal do paraíso, o rumo do descaminho, que se não der em beijo e carinho, em cama e suor, em nuvem e espinho, em hino em fá maior, pelo menos vai deixar um verso de bolero, uma rima de balada, um ritmo de samba no desengonçado coração.
Desde que o mundo é meu que intenciono ser o mais belo poeta do universo, já que não posso ser o poeta mais belo: perco de dez para castro alves e talvez empate com noel rosa. mas já me bastam deles as companhias nesse absurdo embate.
Desde sempre dedico versos a criaturas femininas, depois aprendi a respeitar os mais velhos e me curvei sobre os que me fizeram e construíram, além de oferecer a gratidão aos amigos que se postaram e chegaram a mim e eu a eles.
Desde sempre quis ter um bem para quem quer que fosse que me inspirasse afeição. Hoje, incrédulo, vejo que sigo assim, mesmo descrente de maravilhas, ainda um homem rente a absurdos e no entanto crente do seu vulgar mas sagrado moto perpétuo: amar. e se enredar, e me enramar.

marco/21.12.2009.

domingo, 3 de janeiro de 2010


TRÊS TRECHOS

FALTA MINHA
me faz falta um encosto de pele deslizando, um encontro, a boca muda mas sedenta, os olhos densos não de lágrima mas de luz. tento mas não acho mais, acho que não lembro da primeira nem muito menos da última vez em que me senti assim: intenso e perplexo, tenso na medida exata do reflexo, sendo senda e recebendo dádiva, entendendo o sentido do amor, sentindo o sentimento de estar no ar sem voar, em uma centelha de momento saber um universo de carinho.
me faz falta sonhar.

MEA MEIA CULPA (Romance Policial)
às vezes esqueço o nomes das pessoas. os rostos, de quando em vez. os corpos quase nunca. mas é difícil localizar um corpo sem rosto e sem nome. somente pela arcada dentária ou pelas impressões digitais, histórias policiais. se bem que as tais impressões corporais também são únicas, pessoais e intransferíveis. só que tem que: recorrer a seus atos para serem identificadas, ou seja, o suspeito tornando ao lugar do crime.
então tá: vou declarar que você deixou pistas, epitélios, pelos, dna. você deixou suor, lágrima, batom, música no ar, cheiro intenso.
já dei meu depoimento. aguardo você voltar e confessar. sei que é nossa a culpa. por isso não posso pagar a pena sozinho. vou requerer prisão conjunta.

QUAL METADE?
se fosse possível escolher, nem saberia a qual meu voto daria: querer a metade do sonho sonhado ou a outra parte, sem final certo, ao deus dará a dinastia de minhas ilusões e desvarios? assim como não como nada disso de parte da frente sem parte de trás, ou você é inteira ou vá virar moeda e jogar cara e coroa, procura outra alma crédula e dela faz sua fonte de prendas, sua fonte de renda, sua fronte em frente que acredite em suas lendas.
se fosse assim, e não nunca é passível julgar, nem poderia da ação para a palavra transliterar.
na verdade, só quero e gostaria de poder amar um amor simples e cheio do poder do alimento que nos traz o prazer, o tesão, a alegria, que se surpreende em um amor pleno de vida, querendo mais dias, e noites, e gentes e planos e cardápios e dentro desta mais outras vidas. porque somos sós mas somos múltiplos. se for algum dia possível, eu quero dividir uma nossa semente: suma seja nós; soma seja a gente. depois alguém escolhe, alguém colhe, o que prestou, o que deu sabor, a partir dessas almas perenes.
(quando te escolhi esqueci de anotar que só queria você só e somente você, simplesmente.)

marco/03.01.2010.

POEMA DO ANO DEZ

que o novo ano
seja um ovo

chocante.

verde, azul ou rosa,

como aqueles dos bares

das rodoviárias.

mas que seja também

um torso

constante

verde e rosa ou azul

e que ele te leve

longe das barbáries,

das intempéries e

das políticas que não tem

amor como raiz.

que o novo calendário

seja um ideário

que possa se realizar;

que o seu amor
seja possível de amar;
que esses mais outros dias
sejam de se rever

aquilo que se recusou
a reconstruir.

que a gente possa ter
um estojo

onde guarde grafite, tinta e borracha
e saiba gravar o que é sempre,

o que é provisório,

o que é definitivamente

agradável ou nojo,

imprescindível ou descarte.

que a gente,

toda gente,
possa ver a luz do próximo dia
sem maldizer

mais um dia que nasceu.

que a gente
quando for fazer mais gente

que saiba que isso

inclui: amor, paz, carinho, zelo e

sustentabilidade.


quero dizer: não adianta
eu morrer por você,

eu parir alguém,

sem necessidade.

quero dizer:
que o novo ano

seja um ano novo,

um ovo
de colombo.

marco.2009/2010.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009


PRÓ
acho fulgurante ter te encontrado, me miscigenado contigo, sem nem talvez você saber que isso acontecia por dentro de mim, ou até eu mesmo não me dar noção do quanto no quando poderia ser conquistado. esses movimentos, em mais de um momento, são fachos de luz que não queimam os olhos, muito mais me revestem de unguentos que, por sua vez, não neblinam a visão mas mais a determinam a te ver: e quanto mais de perto melhor, e quando mais certo o enredo, melhor pro ator e tão mais pro autor. acho e perco essa chave de ter te encontrado e ver portas se abrirem para sem erro te sorrir, depois eu me revisitar em todos os atropelos, zelos, em cada fio de pelo e me redescobrir assim um ser: capaz de ainda amar, voraz de emoções e carinhos, feições delineadas em especiais silhuetas que eu quero e careço. por isso este texto não era pro público, estas palavras iriam ficar em nossos centímetros cúbicos. mas queria mais dizer que o amor ainda existe e por isso vale às penas estar vivo, ter te escrito, mesmo que sejam instantes súbitos. e nada mais. mas múltiplos!
marco/29.12.2009.

domingo, 20 de dezembro de 2009


SER AMÁVEL

muita vez a gente acha que basta amar para receber amor em troca. nada disso, não é bem assim. além de amar é preciso ser amável.
e assim, se o seu, não é ou foi um amor de primeiríssima vista, com certeza você já exigiu do amor, do qual cobra troco, algumas ou muitas prerrogativas ou premissas ou pré-requisitos, dos mais vulgares aos mais esquisitos. dos mais dramáticos aos mais hilários. por isso, mais que haver amor, que mostrar amor, que exalar amor, que falar de amor, que fazer amor, muito mais é necessário ser amável.
tanto ao homem como à mulher este indício é imprescindível: ser amável.
ser amado ou amada já é outra história, outra questão, é outro caso. mas para receber a graça do amor devemos ser amáveis. e não pense em aparência ou condição, não só nisso. lembre de todos os seus maus pensamentos e acrescente algumas potências e tente avaliar o que do outro lado te espera. do outro lado do seu amor há um outro amor que sempre irá te surpreender. que te pede um compromisso mas logo após quer sumir de você. por isso é urgente ser amável.
e ser amável, criatura, é um exercício de adivinhação. e não adianta ir aos búzios, aos tarôs, às bolas de cristal, às loterias da caixa econômica federal. quem tem que intuir, pressentir, predestinar, saber como: é você. quem tem que assumir o oráculo do provável é você mesmo e não tem escapatório. e não tem escapulário que te benza de antemão.
e, sabendo, para cada pessoa um você amável. e em cada pessoa, a cada tempo, um amável você, a cada minuto, segundo, átimo.
mas não é isso que a gente quer? alguéns que gostem de nós de forma indubitável, cega e surdamente amorosos e compreensivos e que nos tragam alívios e não pesares, queremos voar nos sonhos e não nos arrasar na realidade, pois não?
então, com quem por certeza ou acaso cruzar meus caminhos, faço um trato: seja amável comigo e eu tentarei ser pra você um ser amável.

marco/20.12.2009.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009


FARISEUS

sabe quanto é precioso e às vezes pernicioso dizer eu te amo?
por isso eu não disse e acho mesmo que nunca direi pois você não veio à vez, você é uma pedra preciosa para outro anel; ao mesmo tempo que sei que você é fruta de vez, e tem que ser colhida, assim como sei tirar do pássaro e do peixe, onde exista, o fel.
sabe o quanto é preciso de asas e rezas para chegar aos céus?
nem eu nem deus nem todos os diabos sabem o quanto de estima se tem que se ter para conquistar um estar no seu eu.
quero é continuar a caminhar pequenino em meu caminho, e se importante for, se for imprescindível, dar um jeitinho para seu sorriso se encontrar com o meu.
sabe como é um passarinho, livre, aceitar uma armadilha só por querer ser seu?
sabe o que é uma maravilha?
nossos dois caminhos múltiplos e sem véus.  e a gente tentar acreditar que vai sair dessa incólumes, ateus.


marco/07.12.2009.

NORMAL

Gostaria muito, se a vida me fizesse um obséquio, de me apaixonar de novo. Mas não como um tolo embasbacado e equivocado com os encantos de uma nova possível parceira, enredado em uma oportunidade como se fosse a última e não a terceira, quarta ou milésima quinta. E olha que tentei, mas não deu certo. Nem deu errado. É que somente andar de lado a lado, de bar em bar, de clima em clima, de projeto em projeto, não me dá mais sebo nas canelas, não me faz ir além, não refaz em mim o grande sentimento que já tive algumas vezes, algumas poucas vezes, não me traz a grandeza plena e extrema que já desfrutei quando amei uma, duas ou três mulheres únicas.
Gastaria o resto de minha vida a me dedicar a um amor. Mesmo que fugidio mas fecundo e úmido, mesmo que incompreensível mas sensível e múltiplo, até um absurdo surto que nos ilude, estranho mas entranhado, percurso em minhas veias, concurso em nossas belas ou feias atitudes. Mas sobretudo um amor que nasça do saber, que viva do prazer e se despeça da vida como sempre foi: um ato claro e certo de quens sabem que amam porque querem e nada nos obriga e nada nos oprime e nada nos retém, nem mesmo em nós, o nada é o nosso tudo, é o nosso caos, é o nosso rumo de amar sabendo que este sentimento é uma arma fatal.
Gostaria de te amar até a derradeira fogueira ou até a última pedra e o cal.
Não posso, mas gostaria de te amar normal.

marco/07.12.2009.

A HARD DAY’S NIGHT

um dia difícil porque meus olhos não veem bem, ou melhor, vem cinza no que é grisalho, ou pior, veem chumbo o que é azul cobalto. um dia difícil porque tenho algumas pequenas decisões a tomar e não tenho certeza do que quero para nenhuma delas. porque hoje eu não quero a rosa mais linda que houver nem a primeira estrela que vier para enfeitar a noite do meu bem. nem do meu mal. nem do trapézio a três nem do diabo a quatro. nem mesmo um chá das cinco ou a ridícula reta dos ponteiros quando dá seis horas, momento dos anjos e enlevos, dos reconhecidos, dos decaídos, dos delicados sons e das mastigações de pães por aqueles indivíduos arrebatados pela fome, pela gana imensa que é reter um naco para sobreviver.
um dia difícil quando se pensa nessas coisas e não em borboletas. um dia difícil como um caminho onde se pega uma ponte e que essa não atravessa, não vai dar em que lugar que fosse. um dia endiabrado como uma cega foice: feito para não desunir mas para magoar, feita para bater e não para podar. uns dias como esse existem, às vezes, mas são tão identificáveis como um demônio na encruzilhada ou um fogo fátuo entre os travesseiros com fronhas de seda ou linho. um dia difícil, muita vez, é como um arminho morto no pescoço da bela modelo ou como um verso curto que te lembre que a felicidade é sempre uma arma quente.
e após um difícil dia, só mesmo uma noite fumegando de dúvidas atrozes, de súplicas atrizes, de dores de artroses.

marco/07.12.2009.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009


ENFIM

o amor quer ter fim
e não há nada
que o faça resistir.

nem teu beijo mais amoroso
nem teu silêncio absoluto
nem teu gozo, teu soluço
nem teu recanto mais íntimo
nem teu muco, teu esforço
teu cabelo em desalinho
nem teu ato resoluto
nem teu dengo mais gostoso
nem teu olho, nem teu dente
nem teu mais caro presente
nem teu mais claro futuro
teu passado tão sozinho.

o amor quer partir
e nada há
que o faça reunir.

marco/01.12.2009.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009


QUERO ALGUÉM

quero alguém com quem repartir minhas riquezas: música, poesia, sensibilidade à flor dos poros, corpo gasto mas sábio, alma farta mas cabível de novos astrolábios, palavras para repetir e reinventar, carinhos máximos como aqueles com que sonham os prisioneiros e os outros que ainda não os adivinharam, embora sejam os mais livres dos hereges e cristãos. quero alguém com quem dividir minhas despesas: a dor que advém da crença em falsas lendas; a responsabilidade de não iludir ninguém; o peso da carga inúmera que se esquarteja em mil sílabas, a cada palavra dada, a toda sentença recebida; e outras inumeráveis minúcias do ser e do estar, pedras ou espinhos na estrada, serras ou desertos no caminho. quero alguém sincero no riso ou no choro, de quem possa me despedir ou dar bom dia sem um versículo de dúvida que nós somos os mesmos, na ida e na volta, no grito ou na canção, na dor ou na luxúria, no rente do normal ou na mais temente coisa espúria. quero alguém que me valha, que me saiba, que risque o fogo em minha palha e depois me arremesse águas, que me arregace a alma, me cure e desespere, me desfrute e que prospere junto a mim. como musgo em nossas pedras fundamentais, lodo em nosso solo de humanidade, bolor que traz para a vida a penicilina e não a escatológica virose fatal. porque estamos vivos e neste ato quero um alguém soberano sem ser ditador, rainha sem se fazer de déspota, quero uma mulher linda porque saberá ter beleza de ser e de estar com aquele outro ser que lhe gosta, porque saberá lindamente amadurecer diante de quem saberá usufruir do seu sabor porque te ama e exclama.

marco/29.11.2009.

domingo, 29 de novembro de 2009


MINHA ALMA CANTA

minha palavra cata uma ínfima notícia em uma partícula de suor dentro de um teu poro, suspira essa umidade e sublima o que seria a emoção. minha palavra se escalavra querendo ser íntima daquele teu mais secreto acontecimento, aquele que você sentiu mas somente deixou uma pista e não um poema concreto, nada de manchete no jornal. minha palavra vibra ter uma unidade com você: sabendo da insuportável insegurança da separação e do inevitável alívio de estar só. minha palavra cunha a unha e dente justiças, vinganças, bonanças, e mil outras coisas castiças ou malgradas, salga os chãos, nubla os éteres, depois almalgama todas as sílabas nascidas do destemperamento e cria enfim uma nova expressão de cores, luzes, sabores, cheiros, toques, paladares: minha palavra irá te encontrar sempre e sempre, não importa em que fresta minúscula, em que caverna oculta abaixo do nível do mar, não se esgota a sanha e a façanha de rever e recriar e refazer e reir e revoltar. minha palavra é meu sétimo selo. quando te penso sei o todo, o princípio e o fim do novelo. minha palavra é alma quando te toma para mim, quando a vida é um extremoso sim.
marco/29.11.2009.

 ATRAVESSO

mas qual é a diferença entre a mágica e a feitiçaria, a mesma entre a prática e a teoria? a cesta básica do amor é mais drástica ou dramática do que o fim de feira da periferia? por que me envenena os sentidos esse brilho de olhos que olham e não me adivinham? será destino ou magia o que mora em minha vida e não vive em seu dia a dia, será desvio ou rotina a próxima emergência, irá como mera ardência e voltará como extrema alergia?
qual será a semelhança entre a feiticeira e a maga, o que as une ou afasta, o que as diferencia? e o que delas cia em mim animalescamente? as fórmulas, as rezas, as pragas ou serão as profecias? e o que delas em mim gane assim tão dilacerada voz ou uivo? cheio de interrogações e dúvidas, preso a tantas perguntas, hoje e agora me despeço, nem primeiro e nem penúltimo, nem respondo nem promesso, faço suas as minhas súplicas. meu amor é meu avesso.

marco/29.11.2009

sexta-feira, 27 de novembro de 2009


MEUS EUS

quero todas as memórias, se possível em cataratas, para chorar de vez o que se foi e, depois, revoltar os instintos – aqueles dos mais ariscos bichos – despertar os indícios do que poderá, de futuro, me advir.

quero todas as histórias, as misérias, os lábaros, os mistérios, os mapas, os minérios, as previsões do tempo, as profecias desacontecidas, os méritos sem glória, quero todos os poemas escritos em úmidos guardanapos, quero todas a as idades, anuidades, de todos os clubes, de cada gueto, do mesmo cartão, de cada ano vivido à esmo. quero todas as cidades, inclusive e peremptoriamente as que não conheço.
quero um amor louco de pedra, feição de fedra em leito de apolo. quero amar feito uma lesma sua sua desconcertante linha, às vezes parecendo indecisa, outras retilínea como a vespa, mas que sabe aonde vai e sempre chega, aonde quer que venha a chegar, porque é da vida sermos curvas e arestas. por que por maior que seja a mentira, quando alguém se fia, torna-se ela verdadeira.
e o verdadeiro amor não é o que cabe em si mas o que mais navega. e o mais sincero bem é aquele que te dá um braço pra não perder a perna. pois que poderá caminhar e te encontrar e ainda te abraçar e com cinco dedos te indicar o próximo caminho para uma outra promessa.
quero todo o infinito para fazer um currículo do universo. mentira: queria mesmo é ter os seus olhos nos meus, reter seus carinhos, sentir que o astrolábio indica o que é nosso e não o que sempre se perde nos horizontes entre luzes de vitórias e os caos dos apogeus.

marco/26.11.2009.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

TE QUERO

Queria te falar uma coisa da forma mais singela, ferrenha e amorosamente sincera. Gosto de pessoas sensíveis, de gentes sonhadoras, de criaturas vividas e vívidas, de mulheres bonitas, de esmalte vermelho, de quem sabe o que é e tem lugar para tudo em seu dia a dia: sua possível tristeza, sua benevolência ou rudeza, seu flagrante ou discreto charme. Gosto de quem me olha com bons olhos, generosos olhos de quem me lança ao além, de quem não me abate.

Queria te falar umas palavras sem rima, coisa de poeta sem oficina, troço de homem que já passou sua dose de carnificina na vida. E não quer mais se arriscar, não pode se deixar levar, não cede nem mais um centímetro além daquele que separa meu desejo do seu penhoar. Queria te falar que eu te gosto muito e por isso mesmo meu querer é justo. Por não querer ser além do que ele é, por ter a liberdade de existir sem ter que te possuir, pela beleza de saber que melhor é uma amiga nas mãos do que dois amores voando.

Queria te falar aquilo que nós todos somos, pelo menos uma vez, às vezes dezenas, centenas ou milhares de vezes: andorinhas sós que fazem seus invernos ou verões solitários ou cheios de voos conformados. Queria te falar que é muito bom te olhar e te ver sorrindo, que é lindo poder te encontrar e poder estar, mesmo à margem, nos caminhos por onde você vai indo.

Queria te falar, sinceramente, que você é um sol e que eu gosto de quentura, de grandes luzes, de boas sombras. E que, aqui ou alhures, conto com sua luz, canto em seus versos, quero sempre estar perto de qualquer coisa que me conduz à liberdade, seja um crente sinal da cruz ou um barco singrando em mar aberto. Queria te falar que te quero.


marco/24.11.2009.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009




IDADE MADURA

não se afeiçõe de mim
eu não sou flor
que se plante
não me queira em seu jardim

mas se veio a afinidade
tente driblar os meus passos
tente não ser do meu jeito
embora esteja ao meu lado

tente não ver meus defeitos
pense em outros abraços
só permaneça comigo
se for mesmo inevitável

não se acostume comigo

do meu amor
não se encante

nem me queira seu amigo

mas se for necessidade

tente afinar meus compassos
quente não ser complacente

mesmo ficando ao meu lado

tente não crer nos meus erros

pense em pôncio pilatos
só envelheça comigo
se for mesmo necessário.

marco valença/30.10.2009.

Bilhete arrancado de uma agenda do ano 2000

Após uma linda noite de show de música e autógrafos de novos livros, encontro o velho amigo, protagonista, num canto recolhido do camarim: O que foi, não foi bom, o que é que houve ou deixou de haver? E ele me diz: Tudo perfeito, tudo ótimo, até demais, só estou aqui choramingando porque, nessa altura do campeonato da vida é imensamente gratificante mais uma vitória mas é definitivamente cruel não ter com quem a dividir.

 Pois é, amigo velho, me sinto hoje assim. Qualquer coisa boa, qualquer lembrança, história, ilusão à tõa, pressentimentos, não tenho ninguém com quem partilhar. Nem o mais novo poema ou letra de música ou o último broto daquela samambaia mais antiga. Não pelos amigos, que ora são muitos, outras horas raros; não pelos familiares que no meu caso são dois; não pelo público que varia, você sabe, de belas borboletas a moscas varejeiras.


Não, o que é realmente difícil é não ter com quem fazer guerra ou chorar no mesmo travesseiro.


marco/18.11.2009.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

UM SOL

Tenho em mim um sol com seu absurdamente grande e óbvio calor e de resplandecência extremamente bela. Tenho em mim a luz que faz a vida prosperar, o que faz haver vida, que faz a vida ser sentida e ter sentido.
Esse meu sol é o mesmo que habita em todos os seres vivos mas este, aqui na minha mão, aqui na minha pele, aqui na minha alma: é o meu sol íntimo.
É de todos os que ele ilumina mas é só meu, este sol que me renasce a todo dia.
Essa luz que se parece com esperança, que se estremece como criança parida, essa força que dá força à terra e dos brotos se revela em clorofila. Essa coisa que faz levantar os potros, os bezerros e as novilhas, esse maremoto de energia que me faz amar e fazer do amor minha sentença e alma e carapuça e armadilha.
Tenho em mim um sol que não tem domicílio somente em meu coração de leão como também na ponta dos meus cílios: cada vez que vejo, cada vez que pisco, cada vez que choro é no meu sol que brilha a minha lágrima, nele se espraia meu abalo sísmico, é nesse sol que espelho o meu ser amante, prazeroso e difícil.
Meu sol é a minha maior realidade e o meu mais real artifício.
Tenho em mim uma luz de sol que quer resplandecer para além dos problemas, emblemas, doenças e sacrifícios.
Quero um verão pleno de pomares repletos de mangas e umbús e laranjas e a abóboras e chuchús e goiabas e tamarindos. Quero a luz do sol em todos os idosos, em todos os medrosos, em todos os corajosos, em todos os anciãos e em todos os meninos.
Tenho um desejo de sol que ultrapassa as noções de dia e noite, que envolve as porções de noite e dia, que dissolve os teoremas e resolve com luz e felicidade um novo bom dia.
Tenho em mim um sol que te ama, que me ama, que quer fazer da gente uma eterna poesia.

marco/16.11.2009.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009


SEM SACAROSE

Gosto de beijos e palavras.
Às vezes secas, outras molhadas, às vezes ternos, outras apaixonados.
O meu texto preferido é aquele agressivo sem deixar de ser simpático, irônico sem chegar a ser cínico.
O meu beijo predileto é o justo, encaixe sem sobras embora use, abuse e lambuze nossas bocas.
Gosto de novas e velhas bossas, boleros derramados, assuntos místicos, ângulos obtusos, quadrados, círculos e quadriláteros.
Aprecio palavras e expressões de duplo sentido como : "rio" e o "pau vai comer". Beijos, tenho gosto por uns que parecem águas transbordando, mas também os cálidos e silenciosos também me agradam, além dos famintos.
As palavras que tem fome me fascinam de forma ímpar: "devorar", "deglutir". Se são verbos ainda melhor pois há possibilidades muitas onde me devorarás ou eu te deglutiria.
Adoro palavras e beijos: as palavras pelas sílabas e expressões idiomáticas; os beijos pelos lábios e línguas.
A primeira vez que tentei falar francês, me estrepei. A primeira vez que tentei beijar francesa eu trepei.
A linguagem é a melhor forma de beijo e o beijo é a melhor tradução de qualquer linguagem.
Sem sacanagem:
Gosto de beijos e palavras.
De beijos sinceros e de palavras exatas.

marco/11.11.2009.

domingo, 8 de novembro de 2009


VÍRGULAS E RETICÊNCIAS

o melhor de amar e escrever,
é poder ser grave e solene,
mentir ou iludir conforme a fase,
conforme a frase,
déspota ou indigente,
ter o poder de poder,
disfarçar as rugas nos olhos,
ocultar os sentimentos,
por vírgulas em todos os versos,
que não necessitam deles,
o mesmo melhor de amar e ser poeta,
é saber brincar com destinos,
voltar a ser menino,
sofrer de dor de cotovelo,
se embolar nesse novelo,
sem ser gato ou fuso,
é querer um horizonte,
mesmo que seja a parede,
ou a porta em frente,
e não escalar os montes,
morros, montanhas,
não descansar nos lagos,
e se esforçar nos mares, nas marés,
piscinas olímpicas e outras atividades,
menos físicas e mais mediúnicas,
mais para tísicas do que para saúdes,
o bom de poder tocar esse instrumento,
que é tocar as palavras como um bando,
de cordeiros ou ovelhas,
uma vara de porcos, uma colméia de abelhas,
dizendo o óbvio e ditando,
o próximo evangelho,
com base naquele mesmo velho ditame,
que diz que é vinho o que é sangue,
que será sangue o que hoje é vinho,
que cada instante é,
íntimo e preciso,
especial e definido,
que cada palavra poderá,
a cada segundo,
ser um silêncio definitivo...

marco/8.11.2009.