quinta-feira, 30 de julho de 2009

INCONTESTE

tenho um germe. e a gripe me parece boa.
me dá febre e fome de querer mais. me deixa leve, às vezes me engasga. e me gasta muito e muito. mas a gastura é boa, do bem, então bendita que seja e venha mim e amém pra sempre.
tenho um verme. que insiste e parece a mim uma boa prece.
me reza o corpo e espírito, me deixa louco e com um ritmo ardiloso e contínuo: cada vez mais quero que me leve, leve para além dos limites, além do breve. e que esteja aqui, assim, comigo. ou então me doe a dor consigo. com ele, que ela se torne inolvidável, permanente, minha pele.
tenho uma leve certeza que a paixão - e não o amor - é o cerne.
de qualquer ser, agreste ou inerte.

[mas o amor ainda é em mim um vírus insondável. uma peste.]


marco/30.07.2009.
TUDO ISSO E UM POUCO NADA DISSO

/não quero deixar isso passar por mim/não quero deixar disso e passar por mim/não quero passar/não quero deixar/ não quero isso disso mas em mim/eu quero é mais desse isso/eu quero é mais que esse tudo disso/queira a mim/. amém.

Quero abrir os olhos para os acidentes e incidentes que venham,
tenham que atingir seus êxitos. em mim.
Tudo que vier passar
a ferro
não só a roupa mas a alma
não só o corpo mas os sonhos
Tudo que tiver que passar
a limpo
não somente as mãos mas os olhos
não somente as palavras mas os atos
não, não quero deixar
um xis, sequer,
se quiser,
passar por mim.
quero abrir os poros para os coniventes e inconvenientes que
se chamem ao meu destino. em mim.

Tenho que passar por isso
saber cada instante e
depois passar,
ir além.
Passar bem, passar mal,
bem passado, mal passado – um futuro
ao ponto!

Quero, mais que humano, re
nascer visceral.

/quero deixar isso passar por mim/quero deixar disso e passar por mim/quero passar/quero deixar/quero isso disso/mas em mim eu quero é mais/desse isso/eu quero é mais/que esse tudo disso queira, e muito, a mim/. amém.

amem....


marco/30.07.2009.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

VOCÊ é FONTE
(mesmo quando não está minando, mesmo quando não está defronte).

levou minha ventura, levou mas não ficou: descartou, jogou fora: no lixo, na esquina, no meio fio, no ar, jogou no mar.
me deixou sem cartas, sem migalhas, sem quinas, sem meios, sem fios, sem ar, sem mar.
porto seco, sou eu. um navio, uma barcaça, uma canoa, uma jangada: esperanças massacradas até a morte, com requintes de crueldade.

o amor é mesmo esse banquete de mendigo. ainda sei o seu nome, distingo sua voz, espelho seu olhar, conheço seu corpo (os maciços e os esqueléticos tremores), ainda sei seu apelido, distingo seus rumores, espelho seus trejeitos, percebo suas sanhas (as poderosas e as frágeis artimanhas), conheço e reconheço sua estranha alma. o amor é o mesmo e esse.

levou minha secura. e me alagou de mormaço. e me fez salobro. e achou e me devolveu minha amargura. e redescobriu meu cansaço. e alimentou meu pouco sono. e ressuscitou os meus terrores insones.
levou o meu passado, roubou o meu presente e me assaltou o futuro. o amor é mesmo essa caldeira de rompantes, esse cadinho de destinos.

levou meu horizonte, levou mas não foi adiante.
me deixou com minha memória: só, sério, forte e fatídico como um elefante rumo ao seu cemitério.


marco/24.07.2009.

terça-feira, 21 de julho de 2009

MEU QUERIDO DIÁRIO,


Hoje sou só sorrisos.
Ainda tomo um remédio mas a distimia e a depressão estão irremediavelmente afastadas de mim.
Casei, de novo, com uma mulher que me ama e eu a quero com todo meu amor e bem querer. Pensamos em ter filhos, pro ano que vem.
Preparo novos livros, um de poesias e outro de fotografias, ainda pra esse ano, contratos já assinados.
Tenho um cão, um gato e esperanças visitam a casa todos os dias.
Sinto que a vida, agora nessa idade madura, vem a ter bem comigo.

Só uma questão, Querido Diário, inexorável: dei pra mentir.
Peremptóriamente minto: para os meus mais queridos, para os de menor afeto, para todos minto.
Minto descaradamente para mim,
e pra ti, Querido Diário.


p.s. – amanhã te conto mais, sim?.



marco.21.07.2009.
DESGRAÇADO AMOR


"me ame como a um irmão: mentiras sinceras me interessam."
Cazuza.



diga que sim, finja que não: me ame como a um amigo. todos os deslizes, todos os desastres, todas as desculpas me interessam. diga que não, minta que sim: me ame como a um semelhante. todas as desistências, todas as covardias, todos os álibis me interessam. diga que sim, peça que não: me ame assim como a um vil. todos os recalques, todas as minúcias, todos os chiliques me interessam. diga que não, sinta que sim: me ame assim como a um qualquer. todos os senões, todas as injúrias, todos os tesões me interessam. diga que sim, creia que não: me ame como a um senhor. todos os poderes, todos os pavores, todas as insônias me interessam. diga que não, cisme que sim: me ame como a um menino. todos os brinquedos, todas as vontades, todos os segredos me interessam. diga que sim, siga que não. me ame como a um defunto. todos os martírios, todas as mazelas, todas as relíquias me interessam. diga, finja, minta, peça, sinta, creia, cisme, siga. me ame como a um nenhum. como a nenhum outro. mentira perversa me interessa.


marco.21.07.2009.
UM POEMA TORTO:


ENVIEZADO

todos os meus deuses oram
roldos dos meus nervos param
lodos dos meus chãos remoçam
toldos dos meus circos roçam
os céus
só de pensar em te rever
e te ter e reter você sem fim.

soldos do que sou
não pagam
um seu viés
que viesse a mim.



marco.21.07.2009.
UM RETRATO SEM IMAGEM: SÓ SENTIMENTO.

Vi uma mulher chorar. Muito.
Bem silenciosamente, chorando muito.
Penso que por amor ou desamor, mas certamente de dor. Muita.
Creio que coisa repente e automáticamente avassaladora. Sem aviso ou prévio pedido de permissão o sentimento a conquistou, tomou posse, imperou.
Sem lágrimas ou soluços, somente uma fonte deslizando de seus olhos, francamente.
O que não me causa susto, desejo de socorro, apreensão nenhuma. Reconheço fisiológicamente o que vejo porque me reflete no fundo do olho, me arrepia todas as peles, pelos e espinha, me exerce uma força tamanha que quase que acho que aquela água é minha.
Que é a minha. Mina de sal e mágoa.
Então, só agora sei, que aquela mulher, de alguma forma talvez mais que humana, foi amalgamada a mim: amada sina, amiga involuntária e inalienável da minha vida.


marco. 19.07.2009.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

DO MEU CORAÇÃO À TUA MORADIA

Lembrei de um samba antigo que diz:
Tristeza/por favor vá embora/minha alma que chora/está vendo o meu fim/fez do meu coração a sua moradia/já é demais o meu penar/quero voltar àquela vida de alegria/quero de novo cantar:/Láláiálá Láiáláiáláiála Láiáláiáláiála...

É porque o amor é também e muitas e muitas vezes, muita alegria. E até felicidade.

Mais gostoso do que coçar bicho de pé, o amor, às vezes, é mais fantástico do que o milésimo gol de Pelé, mais glorioso do que ouvir Batatinha cantando um samba novo com Baden Powell acompanhando ao violão e ainda o distinto sambando de sapatos brancos pra gente ver. O amor pode ser mais furioso do que Antonio Carlos Magalhães estapeando uma moça em plena entrada do Clube Bahiano de Tênis por ela ter gritado: ladrão! O amor pode ser mais curioso do que ver, e fazer que não se viu, um beijo de Paulinho da Viola em sua Lila, no camarim.
Mas voltando ao abstrato e às coisas e fatos que ainda não vi, mesmo assim sei que o amor é capaz, rapaz, de reter e expandir uma tal alegria e felicidade que só mesmo um deus, se eu acreditasse neles, seria o senhor do poder de animar criaturas e seres. Sei que sou, humilde mas não modestamente, somente um senhor que escreve essas linhas e prefere ser frango de abatedouro a ser galo de rinha; ser só ouvidor e não alto falante das gentes que não sabem, bem, se choram ou se riem.
Enfim, sem fim, quero é dizer que um grande samba me salva o dia, me alegra e felicita. Mas que no fim da noite, cabeça no travesseiro, ainda a ausência da tua pessoa me magoa e me contamina.

Quero de novo cantar!


"Tristeza" (Haroldo Lobo/Niltinho Tristeza)

marco/14.07.2009.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

PERDIÇÃO

É como se perder na cidade onde se nasceu e viveu toda a vida.
Perder um grande amor é assim.
Não se reconhece as esquinas, os nomes das ruas, os endereços dos amigos, os bares, os teatros, as praças, os aromas , os ventos, o salitre, as praias, as áreas perigosas,
o araribóia, o tomé de souza, a viradouro, o ilê ayiê, o tatuí de itaipú, o sargaço de itapuã.
Não se sabe mais nada de nada e muito menos se sabe quem é aquela cara que te encara no espelho. Aquele cara.
É como se ignorar e se está vivo e, se por acaso estiver, ter ainda a cumprir algum destino, desgraçadamente.
Assim é perder um grande amor.
Não se respira, come, enxerga, toca: geralmente se bebe e sonha mas somente sorvendo álcool e dissolvendo horizontes. Nada de sabor ou novos planos. Nada de tudo de bom, nada.
É assim: fui embora e esqueci (ou não tive oportunidade) de me despedir de mim. Fiquei na gare, no cais, na porta de casa, me vendo ir sem saber pra onde.
Perder o grande amor próprio, propriamente é assim.
Se esborrachar no chão do saara vindo diretamente do pico do himalaia.
Assim é perder o próprio amor, grandemente assim, enormemente ruim.

“eu não moro mais em mim”
adriana calcanhoto.


m.25/05/2009.

quarta-feira, 8 de julho de 2009


SISO

Preciso me livrar de meus vícios. Necessito me ver longe de drogas. Inclusive de você. Inclusive de palavras. E frases. E textos. E receitas e fórmulas e rezas e estribilhos e terços e bilros e teias e tramas e urdiduras e conversas moles.
Preciso ser preciso: exato e pontual como a bebida para aquecer no pólo e o vômito para curar nos trópicos.
Necessito ser necessário: a postos na sentinela de minha insônia, no abandono sem apuros de quem dorme o sono dos justos.
Careço de carinho próprio, de amor próprio, de sexo próprio: tenho que ser meu proprietário. E habitar em mim. E me alugar a mim. E me faxinar, esfregar os chãos, lavar as vidraças, encaixar as telhas vãs, testar a campainha, o interfone, o telefone sem fio, o celular, o tambor de mensagens, a fogueira de fumaças. E acessar email, orkut, twitter, flickr, msn, my space. E desligar a cerca eletrificada. E tomar um banho de chuva para descarregar.
Preciso me livrar. Me ter livre. E não mais me condenar. Nem a ninguém. Nem mesmo a você. E olhar para o céu e sentir que, meia volta, volta e meia, ele é azul de um éter que bem vicia, que é também cinza e negro de uma fogueira pós pôr do sol que me arromba os tímpanos com seus trovões.
Necessito querer. Querer bem, muito bem, querer ótimo. Até mesmo você. E aprender que querência e carência são vizinhas de fonética mas quanta distância em suas significâncias!
Careço conhecer: da fruta o caroço, do animal o osso, da água o poço, do cantar o alvoroço, no velho o moço, no mel o salobro, no sal o saboroso; do amor o rosto, o fosso, o monstro, o desgosto. E todas as mais possíveis rimas raras, mancas ou ridículas.
Devo traçar planos de vôos e viagens, reais ou imaginárias, por qualquer meio de locomoção. Devo fazer cartas e ligações, letais ou impagáveis, através de quaisquer meios de comunicação. Devo gerir gerações de ações pró mim. Pró eu. Sem agir com você. Devo, não nego, pagarei se acaso um dia eu puder. Se tiver o poder. Se estiver no haver. Se vier a ser. Se tiver a ver.
Por enquanto, é siso iniciar por um se...


marco/08.07.2009.

AMOR DÁ TRABALHO

Você havia, realmente, plena razão quando um dia, qualquer, me disse: o trabalho é o melhor remédio para distanciar o mal de amor, os males familiares, os instáveis relacionamentos sociais.
É claro, obscuramente, que você tinha razão. Tenho em mim, hoje, esta certeza. Me exacerbando de competências, me totalizando de afazeres, vejo que não me fere a carne e a emoção o amar você. Melhor ainda, muita vez nem sequer me lembro de lembrar de você. Mas, como reza a física básica, toda inanição tem uma desreação igual e contrária, contínua e não quantitativa nem quântica.
Pois então, quando reacredito você, choro de dar dó (dôo a mim mesmo), juro que nunca mais me apaixono (juros só pra mim mesmo), quase morro de desilusão (morro só em mim mesmo).
Gostaria, mesmo, que você tivesse realmente, obscuramente, mesmíssimamente, razão. Mas não. Foi só um lapso de interpretação. Não há como eu depor contra o amor. Então me deschoro mais e me reapaixono mais e desmorro ainda mais e mais.
E ainda mais me retalho, batalho, trabalho pelo meu amor.


marco/07.07.2009.

domingo, 5 de julho de 2009

video

De Novo, Olho No Olho: Tanta Luz!

TANTA LUZ
(Paulo Machado/Byafra/Marco Valença) canta: Byafra

Assim como o peixe espelha o sol

Em seu pulo acima do mar

Que espelha o céu infinito

Assim tanta luz

Que meu coração se prateia

Se doura, azula e esverdeia

Brilhando por sua pessoa

Eu vejo o amor

Como a mais verdadeira das luzes

Por tudo a que ele conduz

Por campos que ele semeia.

Assim como a aranha emenda o fio

Em seu laço acima do ar

Sustenta o véu dessa teia

Assim tanto zelo

Que meu coração se comove

Apura, exulta e remove

Montanhas por sua pessoa

Eu tenho o amor

Como o mais verdadeiro trabalho

Por mundos que ele constrói

Por tanto que ele alimenta.

Assim como o olho explode em cor

Nessa cor a aura do ser

Que vive além do visível

Assim tanto bem

Que meu coração se contenta

Se cora, dispara e inventa

Mil rumos por sua pessoa

Eu sinto o amor

Como a mais delirante das coisas

Por tudo o que ele me dá

Por certo por ter tanta luz.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

ASTERISCOS

o que eu aprendo com o amor é estar sempre a postos para toda investida, qualquer armadilha. o que apreendo do amor é esse peito escancarado sempre prestes ao colapso de alegria ou desespero. é esse jeito de ser: tão descartado que nem trunfo nem coringa vão embaralhar o que tenho nas mãos: razão pura e simples e intensa de paixão. matéria de se garimpar, já te disse, material de ourivesaria. bordo a vida como um broche que se sustenta na pele. com todo alfinete e brilho que for necessário. a bordo da vida como um taifeiro aplicado: atendendo ao amor a todo instante e medida. com o impossível de ser remediado e todo remédio prescrito e inventado. no que o amor me dá lição é no beco sem saída: ter sempre que escapar, não importa usando que arma, truque, não importando qual seja a corrida. no que o amor me toma a lição é no renovar que excita: ter que desdobrar pessoas, lugares, canções, sem importar como, desde que amor seja a sempre mesma rima. o que o amor me faz é uma diária sabatina. me ensina a achar o ouro e toma a minha pepita. o que eu aprendi contigo é poder ser menino se desmembrando do homem, é poder saber ser sincero me desfazendo do orgulho em busca do que venero. o que você me ensinou é sair sem fazer barulho, deixando tranquilidade, bênção, apuro. é vir de onde estiver e remontar num minuto toda obra de amor, todo clima de paixão. e acima de tudo, além das estrelas a mil anos-luz da atmosfera, o que eu aprendo contigo é a ser humano, único, valioso, midas do meu destino.
marco/1978.