sábado, 20 de fevereiro de 2010


SINCERAMENTE

eu queria que você vivesse mais. sinceramente. acho que a gente ainda poderia conversar mais, cantar mais outras boas novas canções que nos vem ao ouvido, talvez mais uns carinhos de olhos sem saudade. quanto tempo a gente não se via? sinceramente, me lembro mais dos primeiros dias que dos últimos tempos. talvez porque possam ter sido mais felizes ou porque minha memória já não seja mais a mesma. é sim, não é mais a mesma. nem a nossa beleza da adolescência, nem os sonhos da meia idade, nem mesmo a resignação da maturidade. talvez somente seja o mesmo algum sabor de um beijo. mas sinceramente, e sabendo que mesmo a pessoa mais sincera mente, eu só queria que você vivesse mais. em mim. mas a morte é uma flor. sempreviva. e o amor, o amor é esse designo de mariposa a se debater contra as vidraças, derreter as asas de ícaro nas chamas, fado que às vezes chamo de enfado. sinceramente, como sobrevivente, eu só queria que você vivesse mais um pouco. um tanto para beber mais umas cervejas, descobrir como é um tal pé de cerejas, suar, chorar, gargalhar, sem olhos de saudade, eu só queria que você não me tivesse feito surpresa.


marco/20.02.2010.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

















CONDOMÍNIO

preciso aprender coisas simples:
mentir com humildade,
trepar sem amor,
dever para ter crédito.


porque com arrogância
a mentira não convence;
porque basta um pouco
de tesão
para preservar a espécie;
porque sem ter
o que me cobrar
você me esquece.

preciso treinar coisas óbvias:
dia e noite, nascer e morrer,
frio e calor, solidão e multidão,
achar, lembrar, perder e esquecer.


e no final da ata,
o que ocorrer.

marco/05.01.2010.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010


AMAR É RAMA

Desde sempre coleciono versos, trechos, poemas, daqueles arrebatados de amor ou paixão, de sentimentos em combustão de si mesmos. Um amigo me disse que sou um irrecuperável romântico preso em um tango sem final, em um bolero desmedido demais para ser verdade. Mas é fato que desde sempre me remoo nas lembranças dessas orações, essas frases, essas palavras que me agradam e sensibilizam as retinas e os olhos, os poros e a pele, os ossos e suas articulações, os pavilhões e os ouvidos, as papilas, língua, garganta, traqueia e tudo mais que vem abaixo, ou ao lado ou à frente, nesse caminho entre os sete buracos da cabeça e outros mais recônditos porém não reticentes.
Desde sempre seleciono amores e paixões em escaninhos estanques da vida. Se alguns se parecem ou tem alguma sintonia entre eles e elas, outras e outros nem espelham que se referiam a mesma minha pessoa. Mas nada como o olor e o sabor de uma embriagadora ilusão para trazer luz, mesmo por instantes, àquele desgraçado coração. Nada como o nunca para suscitar promessas de alguma, naquele desgarrado coração.
Desde sempre tenho o olhar lince para olhos fulminantes, coxas grossas, sorrisos gratos, saias justas, mocotós graúdos. Qualquer lance às vezes torna-se o portal do paraíso, o rumo do descaminho, que se não der em beijo e carinho, em cama e suor, em nuvem e espinho, em hino em fá maior, pelo menos vai deixar um verso de bolero, uma rima de balada, um ritmo de samba no desengonçado coração.
Desde que o mundo é meu que intenciono ser o mais belo poeta do universo, já que não posso ser o poeta mais belo: perco de dez para castro alves e talvez empate com noel rosa. mas já me bastam deles as companhias nesse absurdo embate.
Desde sempre dedico versos a criaturas femininas, depois aprendi a respeitar os mais velhos e me curvei sobre os que me fizeram e construíram, além de oferecer a gratidão aos amigos que se postaram e chegaram a mim e eu a eles.
Desde sempre quis ter um bem para quem quer que fosse que me inspirasse afeição. Hoje, incrédulo, vejo que sigo assim, mesmo descrente de maravilhas, ainda um homem rente a absurdos e no entanto crente do seu vulgar mas sagrado moto perpétuo: amar. e se enredar, e me enramar.

marco/21.12.2009.

domingo, 3 de janeiro de 2010


TRÊS TRECHOS

FALTA MINHA
me faz falta um encosto de pele deslizando, um encontro, a boca muda mas sedenta, os olhos densos não de lágrima mas de luz. tento mas não acho mais, acho que não lembro da primeira nem muito menos da última vez em que me senti assim: intenso e perplexo, tenso na medida exata do reflexo, sendo senda e recebendo dádiva, entendendo o sentido do amor, sentindo o sentimento de estar no ar sem voar, em uma centelha de momento saber um universo de carinho.
me faz falta sonhar.

MEA MEIA CULPA (Romance Policial)
às vezes esqueço o nomes das pessoas. os rostos, de quando em vez. os corpos quase nunca. mas é difícil localizar um corpo sem rosto e sem nome. somente pela arcada dentária ou pelas impressões digitais, histórias policiais. se bem que as tais impressões corporais também são únicas, pessoais e intransferíveis. só que tem que: recorrer a seus atos para serem identificadas, ou seja, o suspeito tornando ao lugar do crime.
então tá: vou declarar que você deixou pistas, epitélios, pelos, dna. você deixou suor, lágrima, batom, música no ar, cheiro intenso.
já dei meu depoimento. aguardo você voltar e confessar. sei que é nossa a culpa. por isso não posso pagar a pena sozinho. vou requerer prisão conjunta.

QUAL METADE?
se fosse possível escolher, nem saberia a qual meu voto daria: querer a metade do sonho sonhado ou a outra parte, sem final certo, ao deus dará a dinastia de minhas ilusões e desvarios? assim como não como nada disso de parte da frente sem parte de trás, ou você é inteira ou vá virar moeda e jogar cara e coroa, procura outra alma crédula e dela faz sua fonte de prendas, sua fonte de renda, sua fronte em frente que acredite em suas lendas.
se fosse assim, e não nunca é passível julgar, nem poderia da ação para a palavra transliterar.
na verdade, só quero e gostaria de poder amar um amor simples e cheio do poder do alimento que nos traz o prazer, o tesão, a alegria, que se surpreende em um amor pleno de vida, querendo mais dias, e noites, e gentes e planos e cardápios e dentro desta mais outras vidas. porque somos sós mas somos múltiplos. se for algum dia possível, eu quero dividir uma nossa semente: suma seja nós; soma seja a gente. depois alguém escolhe, alguém colhe, o que prestou, o que deu sabor, a partir dessas almas perenes.
(quando te escolhi esqueci de anotar que só queria você só e somente você, simplesmente.)

marco/03.01.2010.

POEMA DO ANO DEZ

que o novo ano
seja um ovo

chocante.

verde, azul ou rosa,

como aqueles dos bares

das rodoviárias.

mas que seja também

um torso

constante

verde e rosa ou azul

e que ele te leve

longe das barbáries,

das intempéries e

das políticas que não tem

amor como raiz.

que o novo calendário

seja um ideário

que possa se realizar;

que o seu amor
seja possível de amar;
que esses mais outros dias
sejam de se rever

aquilo que se recusou
a reconstruir.

que a gente possa ter
um estojo

onde guarde grafite, tinta e borracha
e saiba gravar o que é sempre,

o que é provisório,

o que é definitivamente

agradável ou nojo,

imprescindível ou descarte.

que a gente,

toda gente,
possa ver a luz do próximo dia
sem maldizer

mais um dia que nasceu.

que a gente
quando for fazer mais gente

que saiba que isso

inclui: amor, paz, carinho, zelo e

sustentabilidade.


quero dizer: não adianta
eu morrer por você,

eu parir alguém,

sem necessidade.

quero dizer:
que o novo ano

seja um ano novo,

um ovo
de colombo.

marco.2009/2010.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009


PRÓ
acho fulgurante ter te encontrado, me miscigenado contigo, sem nem talvez você saber que isso acontecia por dentro de mim, ou até eu mesmo não me dar noção do quanto no quando poderia ser conquistado. esses movimentos, em mais de um momento, são fachos de luz que não queimam os olhos, muito mais me revestem de unguentos que, por sua vez, não neblinam a visão mas mais a determinam a te ver: e quanto mais de perto melhor, e quando mais certo o enredo, melhor pro ator e tão mais pro autor. acho e perco essa chave de ter te encontrado e ver portas se abrirem para sem erro te sorrir, depois eu me revisitar em todos os atropelos, zelos, em cada fio de pelo e me redescobrir assim um ser: capaz de ainda amar, voraz de emoções e carinhos, feições delineadas em especiais silhuetas que eu quero e careço. por isso este texto não era pro público, estas palavras iriam ficar em nossos centímetros cúbicos. mas queria mais dizer que o amor ainda existe e por isso vale às penas estar vivo, ter te escrito, mesmo que sejam instantes súbitos. e nada mais. mas múltiplos!
marco/29.12.2009.

domingo, 20 de dezembro de 2009


SER AMÁVEL

muita vez a gente acha que basta amar para receber amor em troca. nada disso, não é bem assim. além de amar é preciso ser amável.
e assim, se o seu, não é ou foi um amor de primeiríssima vista, com certeza você já exigiu do amor, do qual cobra troco, algumas ou muitas prerrogativas ou premissas ou pré-requisitos, dos mais vulgares aos mais esquisitos. dos mais dramáticos aos mais hilários. por isso, mais que haver amor, que mostrar amor, que exalar amor, que falar de amor, que fazer amor, muito mais é necessário ser amável.
tanto ao homem como à mulher este indício é imprescindível: ser amável.
ser amado ou amada já é outra história, outra questão, é outro caso. mas para receber a graça do amor devemos ser amáveis. e não pense em aparência ou condição, não só nisso. lembre de todos os seus maus pensamentos e acrescente algumas potências e tente avaliar o que do outro lado te espera. do outro lado do seu amor há um outro amor que sempre irá te surpreender. que te pede um compromisso mas logo após quer sumir de você. por isso é urgente ser amável.
e ser amável, criatura, é um exercício de adivinhação. e não adianta ir aos búzios, aos tarôs, às bolas de cristal, às loterias da caixa econômica federal. quem tem que intuir, pressentir, predestinar, saber como: é você. quem tem que assumir o oráculo do provável é você mesmo e não tem escapatório. e não tem escapulário que te benza de antemão.
e, sabendo, para cada pessoa um você amável. e em cada pessoa, a cada tempo, um amável você, a cada minuto, segundo, átimo.
mas não é isso que a gente quer? alguéns que gostem de nós de forma indubitável, cega e surdamente amorosos e compreensivos e que nos tragam alívios e não pesares, queremos voar nos sonhos e não nos arrasar na realidade, pois não?
então, com quem por certeza ou acaso cruzar meus caminhos, faço um trato: seja amável comigo e eu tentarei ser pra você um ser amável.

marco/20.12.2009.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009


FARISEUS

sabe quanto é precioso e às vezes pernicioso dizer eu te amo?
por isso eu não disse e acho mesmo que nunca direi pois você não veio à vez, você é uma pedra preciosa para outro anel; ao mesmo tempo que sei que você é fruta de vez, e tem que ser colhida, assim como sei tirar do pássaro e do peixe, onde exista, o fel.
sabe o quanto é preciso de asas e rezas para chegar aos céus?
nem eu nem deus nem todos os diabos sabem o quanto de estima se tem que se ter para conquistar um estar no seu eu.
quero é continuar a caminhar pequenino em meu caminho, e se importante for, se for imprescindível, dar um jeitinho para seu sorriso se encontrar com o meu.
sabe como é um passarinho, livre, aceitar uma armadilha só por querer ser seu?
sabe o que é uma maravilha?
nossos dois caminhos múltiplos e sem véus.  e a gente tentar acreditar que vai sair dessa incólumes, ateus.


marco/07.12.2009.

NORMAL

Gostaria muito, se a vida me fizesse um obséquio, de me apaixonar de novo. Mas não como um tolo embasbacado e equivocado com os encantos de uma nova possível parceira, enredado em uma oportunidade como se fosse a última e não a terceira, quarta ou milésima quinta. E olha que tentei, mas não deu certo. Nem deu errado. É que somente andar de lado a lado, de bar em bar, de clima em clima, de projeto em projeto, não me dá mais sebo nas canelas, não me faz ir além, não refaz em mim o grande sentimento que já tive algumas vezes, algumas poucas vezes, não me traz a grandeza plena e extrema que já desfrutei quando amei uma, duas ou três mulheres únicas.
Gastaria o resto de minha vida a me dedicar a um amor. Mesmo que fugidio mas fecundo e úmido, mesmo que incompreensível mas sensível e múltiplo, até um absurdo surto que nos ilude, estranho mas entranhado, percurso em minhas veias, concurso em nossas belas ou feias atitudes. Mas sobretudo um amor que nasça do saber, que viva do prazer e se despeça da vida como sempre foi: um ato claro e certo de quens sabem que amam porque querem e nada nos obriga e nada nos oprime e nada nos retém, nem mesmo em nós, o nada é o nosso tudo, é o nosso caos, é o nosso rumo de amar sabendo que este sentimento é uma arma fatal.
Gostaria de te amar até a derradeira fogueira ou até a última pedra e o cal.
Não posso, mas gostaria de te amar normal.

marco/07.12.2009.

A HARD DAY’S NIGHT

um dia difícil porque meus olhos não veem bem, ou melhor, vem cinza no que é grisalho, ou pior, veem chumbo o que é azul cobalto. um dia difícil porque tenho algumas pequenas decisões a tomar e não tenho certeza do que quero para nenhuma delas. porque hoje eu não quero a rosa mais linda que houver nem a primeira estrela que vier para enfeitar a noite do meu bem. nem do meu mal. nem do trapézio a três nem do diabo a quatro. nem mesmo um chá das cinco ou a ridícula reta dos ponteiros quando dá seis horas, momento dos anjos e enlevos, dos reconhecidos, dos decaídos, dos delicados sons e das mastigações de pães por aqueles indivíduos arrebatados pela fome, pela gana imensa que é reter um naco para sobreviver.
um dia difícil quando se pensa nessas coisas e não em borboletas. um dia difícil como um caminho onde se pega uma ponte e que essa não atravessa, não vai dar em que lugar que fosse. um dia endiabrado como uma cega foice: feito para não desunir mas para magoar, feita para bater e não para podar. uns dias como esse existem, às vezes, mas são tão identificáveis como um demônio na encruzilhada ou um fogo fátuo entre os travesseiros com fronhas de seda ou linho. um dia difícil, muita vez, é como um arminho morto no pescoço da bela modelo ou como um verso curto que te lembre que a felicidade é sempre uma arma quente.
e após um difícil dia, só mesmo uma noite fumegando de dúvidas atrozes, de súplicas atrizes, de dores de artroses.

marco/07.12.2009.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009


ENFIM

o amor quer ter fim
e não há nada
que o faça resistir.

nem teu beijo mais amoroso
nem teu silêncio absoluto
nem teu gozo, teu soluço
nem teu recanto mais íntimo
nem teu muco, teu esforço
teu cabelo em desalinho
nem teu ato resoluto
nem teu dengo mais gostoso
nem teu olho, nem teu dente
nem teu mais caro presente
nem teu mais claro futuro
teu passado tão sozinho.

o amor quer partir
e nada há
que o faça reunir.

marco/01.12.2009.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009


QUERO ALGUÉM

quero alguém com quem repartir minhas riquezas: música, poesia, sensibilidade à flor dos poros, corpo gasto mas sábio, alma farta mas cabível de novos astrolábios, palavras para repetir e reinventar, carinhos máximos como aqueles com que sonham os prisioneiros e os outros que ainda não os adivinharam, embora sejam os mais livres dos hereges e cristãos. quero alguém com quem dividir minhas despesas: a dor que advém da crença em falsas lendas; a responsabilidade de não iludir ninguém; o peso da carga inúmera que se esquarteja em mil sílabas, a cada palavra dada, a toda sentença recebida; e outras inumeráveis minúcias do ser e do estar, pedras ou espinhos na estrada, serras ou desertos no caminho. quero alguém sincero no riso ou no choro, de quem possa me despedir ou dar bom dia sem um versículo de dúvida que nós somos os mesmos, na ida e na volta, no grito ou na canção, na dor ou na luxúria, no rente do normal ou na mais temente coisa espúria. quero alguém que me valha, que me saiba, que risque o fogo em minha palha e depois me arremesse águas, que me arregace a alma, me cure e desespere, me desfrute e que prospere junto a mim. como musgo em nossas pedras fundamentais, lodo em nosso solo de humanidade, bolor que traz para a vida a penicilina e não a escatológica virose fatal. porque estamos vivos e neste ato quero um alguém soberano sem ser ditador, rainha sem se fazer de déspota, quero uma mulher linda porque saberá ter beleza de ser e de estar com aquele outro ser que lhe gosta, porque saberá lindamente amadurecer diante de quem saberá usufruir do seu sabor porque te ama e exclama.

marco/29.11.2009.

domingo, 29 de novembro de 2009


MINHA ALMA CANTA

minha palavra cata uma ínfima notícia em uma partícula de suor dentro de um teu poro, suspira essa umidade e sublima o que seria a emoção. minha palavra se escalavra querendo ser íntima daquele teu mais secreto acontecimento, aquele que você sentiu mas somente deixou uma pista e não um poema concreto, nada de manchete no jornal. minha palavra vibra ter uma unidade com você: sabendo da insuportável insegurança da separação e do inevitável alívio de estar só. minha palavra cunha a unha e dente justiças, vinganças, bonanças, e mil outras coisas castiças ou malgradas, salga os chãos, nubla os éteres, depois almalgama todas as sílabas nascidas do destemperamento e cria enfim uma nova expressão de cores, luzes, sabores, cheiros, toques, paladares: minha palavra irá te encontrar sempre e sempre, não importa em que fresta minúscula, em que caverna oculta abaixo do nível do mar, não se esgota a sanha e a façanha de rever e recriar e refazer e reir e revoltar. minha palavra é meu sétimo selo. quando te penso sei o todo, o princípio e o fim do novelo. minha palavra é alma quando te toma para mim, quando a vida é um extremoso sim.
marco/29.11.2009.

 ATRAVESSO

mas qual é a diferença entre a mágica e a feitiçaria, a mesma entre a prática e a teoria? a cesta básica do amor é mais drástica ou dramática do que o fim de feira da periferia? por que me envenena os sentidos esse brilho de olhos que olham e não me adivinham? será destino ou magia o que mora em minha vida e não vive em seu dia a dia, será desvio ou rotina a próxima emergência, irá como mera ardência e voltará como extrema alergia?
qual será a semelhança entre a feiticeira e a maga, o que as une ou afasta, o que as diferencia? e o que delas cia em mim animalescamente? as fórmulas, as rezas, as pragas ou serão as profecias? e o que delas em mim gane assim tão dilacerada voz ou uivo? cheio de interrogações e dúvidas, preso a tantas perguntas, hoje e agora me despeço, nem primeiro e nem penúltimo, nem respondo nem promesso, faço suas as minhas súplicas. meu amor é meu avesso.

marco/29.11.2009

sexta-feira, 27 de novembro de 2009


MEUS EUS

quero todas as memórias, se possível em cataratas, para chorar de vez o que se foi e, depois, revoltar os instintos – aqueles dos mais ariscos bichos – despertar os indícios do que poderá, de futuro, me advir.

quero todas as histórias, as misérias, os lábaros, os mistérios, os mapas, os minérios, as previsões do tempo, as profecias desacontecidas, os méritos sem glória, quero todos os poemas escritos em úmidos guardanapos, quero todas a as idades, anuidades, de todos os clubes, de cada gueto, do mesmo cartão, de cada ano vivido à esmo. quero todas as cidades, inclusive e peremptoriamente as que não conheço.
quero um amor louco de pedra, feição de fedra em leito de apolo. quero amar feito uma lesma sua sua desconcertante linha, às vezes parecendo indecisa, outras retilínea como a vespa, mas que sabe aonde vai e sempre chega, aonde quer que venha a chegar, porque é da vida sermos curvas e arestas. por que por maior que seja a mentira, quando alguém se fia, torna-se ela verdadeira.
e o verdadeiro amor não é o que cabe em si mas o que mais navega. e o mais sincero bem é aquele que te dá um braço pra não perder a perna. pois que poderá caminhar e te encontrar e ainda te abraçar e com cinco dedos te indicar o próximo caminho para uma outra promessa.
quero todo o infinito para fazer um currículo do universo. mentira: queria mesmo é ter os seus olhos nos meus, reter seus carinhos, sentir que o astrolábio indica o que é nosso e não o que sempre se perde nos horizontes entre luzes de vitórias e os caos dos apogeus.

marco/26.11.2009.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

TE QUERO

Queria te falar uma coisa da forma mais singela, ferrenha e amorosamente sincera. Gosto de pessoas sensíveis, de gentes sonhadoras, de criaturas vividas e vívidas, de mulheres bonitas, de esmalte vermelho, de quem sabe o que é e tem lugar para tudo em seu dia a dia: sua possível tristeza, sua benevolência ou rudeza, seu flagrante ou discreto charme. Gosto de quem me olha com bons olhos, generosos olhos de quem me lança ao além, de quem não me abate.

Queria te falar umas palavras sem rima, coisa de poeta sem oficina, troço de homem que já passou sua dose de carnificina na vida. E não quer mais se arriscar, não pode se deixar levar, não cede nem mais um centímetro além daquele que separa meu desejo do seu penhoar. Queria te falar que eu te gosto muito e por isso mesmo meu querer é justo. Por não querer ser além do que ele é, por ter a liberdade de existir sem ter que te possuir, pela beleza de saber que melhor é uma amiga nas mãos do que dois amores voando.

Queria te falar aquilo que nós todos somos, pelo menos uma vez, às vezes dezenas, centenas ou milhares de vezes: andorinhas sós que fazem seus invernos ou verões solitários ou cheios de voos conformados. Queria te falar que é muito bom te olhar e te ver sorrindo, que é lindo poder te encontrar e poder estar, mesmo à margem, nos caminhos por onde você vai indo.

Queria te falar, sinceramente, que você é um sol e que eu gosto de quentura, de grandes luzes, de boas sombras. E que, aqui ou alhures, conto com sua luz, canto em seus versos, quero sempre estar perto de qualquer coisa que me conduz à liberdade, seja um crente sinal da cruz ou um barco singrando em mar aberto. Queria te falar que te quero.


marco/24.11.2009.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009




IDADE MADURA

não se afeiçõe de mim
eu não sou flor
que se plante
não me queira em seu jardim

mas se veio a afinidade
tente driblar os meus passos
tente não ser do meu jeito
embora esteja ao meu lado

tente não ver meus defeitos
pense em outros abraços
só permaneça comigo
se for mesmo inevitável

não se acostume comigo

do meu amor
não se encante

nem me queira seu amigo

mas se for necessidade

tente afinar meus compassos
quente não ser complacente

mesmo ficando ao meu lado

tente não crer nos meus erros

pense em pôncio pilatos
só envelheça comigo
se for mesmo necessário.

marco valença/30.10.2009.

Bilhete arrancado de uma agenda do ano 2000

Após uma linda noite de show de música e autógrafos de novos livros, encontro o velho amigo, protagonista, num canto recolhido do camarim: O que foi, não foi bom, o que é que houve ou deixou de haver? E ele me diz: Tudo perfeito, tudo ótimo, até demais, só estou aqui choramingando porque, nessa altura do campeonato da vida é imensamente gratificante mais uma vitória mas é definitivamente cruel não ter com quem a dividir.

 Pois é, amigo velho, me sinto hoje assim. Qualquer coisa boa, qualquer lembrança, história, ilusão à tõa, pressentimentos, não tenho ninguém com quem partilhar. Nem o mais novo poema ou letra de música ou o último broto daquela samambaia mais antiga. Não pelos amigos, que ora são muitos, outras horas raros; não pelos familiares que no meu caso são dois; não pelo público que varia, você sabe, de belas borboletas a moscas varejeiras.


Não, o que é realmente difícil é não ter com quem fazer guerra ou chorar no mesmo travesseiro.


marco/18.11.2009.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

UM SOL

Tenho em mim um sol com seu absurdamente grande e óbvio calor e de resplandecência extremamente bela. Tenho em mim a luz que faz a vida prosperar, o que faz haver vida, que faz a vida ser sentida e ter sentido.
Esse meu sol é o mesmo que habita em todos os seres vivos mas este, aqui na minha mão, aqui na minha pele, aqui na minha alma: é o meu sol íntimo.
É de todos os que ele ilumina mas é só meu, este sol que me renasce a todo dia.
Essa luz que se parece com esperança, que se estremece como criança parida, essa força que dá força à terra e dos brotos se revela em clorofila. Essa coisa que faz levantar os potros, os bezerros e as novilhas, esse maremoto de energia que me faz amar e fazer do amor minha sentença e alma e carapuça e armadilha.
Tenho em mim um sol que não tem domicílio somente em meu coração de leão como também na ponta dos meus cílios: cada vez que vejo, cada vez que pisco, cada vez que choro é no meu sol que brilha a minha lágrima, nele se espraia meu abalo sísmico, é nesse sol que espelho o meu ser amante, prazeroso e difícil.
Meu sol é a minha maior realidade e o meu mais real artifício.
Tenho em mim uma luz de sol que quer resplandecer para além dos problemas, emblemas, doenças e sacrifícios.
Quero um verão pleno de pomares repletos de mangas e umbús e laranjas e a abóboras e chuchús e goiabas e tamarindos. Quero a luz do sol em todos os idosos, em todos os medrosos, em todos os corajosos, em todos os anciãos e em todos os meninos.
Tenho um desejo de sol que ultrapassa as noções de dia e noite, que envolve as porções de noite e dia, que dissolve os teoremas e resolve com luz e felicidade um novo bom dia.
Tenho em mim um sol que te ama, que me ama, que quer fazer da gente uma eterna poesia.

marco/16.11.2009.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009


SEM SACAROSE

Gosto de beijos e palavras.
Às vezes secas, outras molhadas, às vezes ternos, outras apaixonados.
O meu texto preferido é aquele agressivo sem deixar de ser simpático, irônico sem chegar a ser cínico.
O meu beijo predileto é o justo, encaixe sem sobras embora use, abuse e lambuze nossas bocas.
Gosto de novas e velhas bossas, boleros derramados, assuntos místicos, ângulos obtusos, quadrados, círculos e quadriláteros.
Aprecio palavras e expressões de duplo sentido como : "rio" e o "pau vai comer". Beijos, tenho gosto por uns que parecem águas transbordando, mas também os cálidos e silenciosos também me agradam, além dos famintos.
As palavras que tem fome me fascinam de forma ímpar: "devorar", "deglutir". Se são verbos ainda melhor pois há possibilidades muitas onde me devorarás ou eu te deglutiria.
Adoro palavras e beijos: as palavras pelas sílabas e expressões idiomáticas; os beijos pelos lábios e línguas.
A primeira vez que tentei falar francês, me estrepei. A primeira vez que tentei beijar francesa eu trepei.
A linguagem é a melhor forma de beijo e o beijo é a melhor tradução de qualquer linguagem.
Sem sacanagem:
Gosto de beijos e palavras.
De beijos sinceros e de palavras exatas.

marco/11.11.2009.

domingo, 8 de novembro de 2009


VÍRGULAS E RETICÊNCIAS

o melhor de amar e escrever,
é poder ser grave e solene,
mentir ou iludir conforme a fase,
conforme a frase,
déspota ou indigente,
ter o poder de poder,
disfarçar as rugas nos olhos,
ocultar os sentimentos,
por vírgulas em todos os versos,
que não necessitam deles,
o mesmo melhor de amar e ser poeta,
é saber brincar com destinos,
voltar a ser menino,
sofrer de dor de cotovelo,
se embolar nesse novelo,
sem ser gato ou fuso,
é querer um horizonte,
mesmo que seja a parede,
ou a porta em frente,
e não escalar os montes,
morros, montanhas,
não descansar nos lagos,
e se esforçar nos mares, nas marés,
piscinas olímpicas e outras atividades,
menos físicas e mais mediúnicas,
mais para tísicas do que para saúdes,
o bom de poder tocar esse instrumento,
que é tocar as palavras como um bando,
de cordeiros ou ovelhas,
uma vara de porcos, uma colméia de abelhas,
dizendo o óbvio e ditando,
o próximo evangelho,
com base naquele mesmo velho ditame,
que diz que é vinho o que é sangue,
que será sangue o que hoje é vinho,
que cada instante é,
íntimo e preciso,
especial e definido,
que cada palavra poderá,
a cada segundo,
ser um silêncio definitivo...

marco/8.11.2009.

ESQUETE

meu coração hoje em dia é deserto insalubre, deserto gelado e não de febre, deserto sem horizontes, sem limites, sem oásis, sem fogueiras ou fontes, certo de que o fim há de vir, qualquer dia desses, e espera que esse dia seja o mais próximo possível da minha última palavra sim.meu coração ontem em dia cada vez mais era um músculo do que um nervo sensível. estou ficando duro, obtuso, mudo diante da realidade. hoje sou um homem maduro em que os pelos escuros, de um dia para o outro, se revelam brancos. e estou falando não só da cabeça mas também das mãos, braços, barba, peito, narinas, pentelhos e cuelhos.
meu coração envelheceu sem pontes. por isso, talvez, hoje ele não se leva a nada. meu coração ateu não tem força nem propriedade para acreditar em mais nada. nem acreditar em mais tudo. muito menos creditar à alguma coisa a se chamar destino a sua pobre e pequena desgraça.
hoje meu coração é sem graça. não te pega na mão, não te diz um gracejo, não te leva para o sofá, muito menos para a cama no quarto dos fundos aonde essa hora ninguém vai lá mesmo. hoje meu coração despreza furacões, desdenha de paixões, se ri de tusinames, repele amor de pele, afronta legiões para se manter incólume e solitário e desgraçado e desassombrado de sua mesma espécie.
meu coração hoje é um troço escroto, um rei morto sobre os braços de sua plebe.

marco/7.11.2009.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009


HOMICÍDIO CULPOSO


não, eu não vou te matar com um tiro na nuca (não vou chegar tão perto), não vou jurar que você era a única (mas sem ser indiscreto), que me traía (e que eu sabia), não vou dizer que mais nunca irei amar alguém (sou infeliz mas não sou louco ao ponto de ficar maluco).
não, eu não sou de matar assim, nem me vingo do amor mal amado com ciscos de lâminas ou chumbo grosso. sou daqueles que se acalmam mas nunca se esquecem. sou um cara que deixa sua marra pra depois, quando você menos esperar: surpresa má.
sou uma criatura sem mágoas mas com um senso de justiça pouco peculiar, principalmente ao poder público judiciário, notóriamente injusto e ineficiente. sou uma pessoa que te quer dente por olho, fio por pavio, rente por pentes de metralhadoras no teu coração, teu coração sempre ardente.
não, eu não escrevo só pra te matar. quero te assassinar de outro jeito, acho que você merece maiores requintes de torturas e sacrifícios, para ver esse amor morrer. para ver nesse amor quem mente, quem é cleópatra e quem é serpente. a mim me apetece um homicídio cheio de resquícios, indícios palpáveis e psicológicos, parapsicológicos, prenúncios cólicos não lógicos, enxurradas de pistas encriminatórias que tem o amor como vítima.
não, eu não te enterro assim, simplesmente, apedrejada e basta? não, quero mais ferros em brasas e tridentes, preparo a cova rasa e as iscas para os roedores e as moscas, não há de restar nem casca das suas sementes. sou do clã dos ingênuos homicidas, dos homens bombas feéricos, dos camicases coléricos, dos suicidas macambúzios que só se finitam após liquidarem muitos.
é um custo te esperar morrer. em mim. é como se nunca tivesse fim a hora agônica entre a tarde e a noite, é como se fosse um eterno e brusco lusco-fusco.
eu nem te queria dizer que dói, nem queria te lembrar que tudo isso se passa a sós.
eu nem te queria mais viver ou matar ou morrer ou renascer. Mas olha o que fiz!: ignóbia tentativa de transformar giz em sangue, otária ardileza que pretende comungar hóstia e mangue, obtusa violência que só fere a quem mais se quer ver incólume.
nem te queria mais, no entanto ainda te carrego em minha alma pobre.
você me sobra e por isso eu sossobro.
e não quero saber de dicionários, as línguas que me lambem me aportuguesam e abrasileram todos os mais íntimos sentidos.
só não vou te matar agora porque você, na hora aghá, me dobra.
até amanhã!

marco/06.11.2009.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009


CUPINS, BROCAS E TRAÇAS


Trapaças (Chico Buarque de Holanda): Contigo aprendi a perder/e achar graça/pagar e não dar importância/contigo a trapaça/por trás da trapaça/é pura elegância//se deres por falta/do teu riso esperto/dos teus sortilégios/entende e perdoa:/eu ando nas ruas com o sol/descolado da tua pessoa.
"
só tinha de ser com você, só você havia de me fazer passar tão bem com você, tão mal sem você. reaprender o que é amor e ao mesmo tempo reconhecer todo o seu lado pestilento, amargoso, como se fosse uma picada do inseto ou aracnídeo mais letal e doloroso; como se fosse uma espinha na garganta e no entanto a dor menor do que o sufoco.
havia de ser com você para eu valorar a desilusão. quando não é uma paixão de estação, não uma fascinação de hora, uma polaróide instantânea – quando é um grande amor que se fina, então a história e a estória se completa e se declina diferente: cada um no seu canto conta o que quiser, cada um no seu canto desafina o quanto puder.
tinha de ser com você, havia de ser pra você, este novo senão que é mais uma dor. e dói mesmo, dói feio, dói para caramba! quero dançar um tango, quero entoar um bolero, quero fazer um samba; quero chorar com Jacob no bandolim, quero estertar com a flauta de Pixinguinha, quero Hermínio, Paulo Pinheiro e Vinícius a me orarem poemas de amores perdidos e encontrados, falidos e ressuscitados, desvalidos e findos.
é, só tinha de ser assim mesmo, com você que é bonita demais, que é feita de azul.
é, só tinha de ser assim, medíocre e banal, meu princípio de final, meu início do fim.
benditos aqueles que amam pois deles será a esperança e a tragédia, a trapaça e a elegância, os andrajos de um amor morto, as franjas alvas de cada novo e insuportável dia.

marco/05.11.2009.

terça-feira, 3 de novembro de 2009


NOVO VERÃO

sem consultar a mim
ou a você
haverá outro verão.
um novo show de cores,
cios, suores e brilhos,
amores de ocasião.

sem perguntar a mim
ou a ninguém
revirá mais um verão
iluminar com sol a pino
as nossas solidões.

marco/14.10.2009.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009


















NÃO É NÃO, NÃO É SIM.

não é que eu não queira, nunca mais, falar contigo de amor. não é que eu não te ame mais, sempre mais, nem que esta maldita palavra [amor] eu ponha num quadro e desenhe em negrito e sublinhe: proscrita!não é nada assim de sentimento, do teu sabor, odor, ou algo que você disse algum dia e que causou tormento, não é nada da lembrança e nem para o esquecimento. não que eu me ponha acima ou abaixo assinado em qualquer documento que seja a seu respeito, muito pelo contrário: respeito é bom e eu gosto: gostosa é a comadre dos outros, a minha é doce donzela.
não é nada demais nem de menos: só não te quero mais, já não agüento mais, eu não suporto mais você. por dentro de meus pensamentos. não é nada, não é nada... já joguei cal, pedra de brita e cascalho, duas massas de cimento; baralho virgem na encruza, dados, palitos e tabuleiros; arruda eu pus de galho, açúcar, sal , salsa e coentro; ambrosia e bom bocado, cocada preta e da branca, pó de anil e de fermento. mas você não deixou em paz a mim nem o meu dia a dia, não me deixou ficar só e nem em alguma companhia.
não é nada assim demais, não é que eu não queira mais ver em você a poesia.
é só que não sou mais capaz de acreditar na nossa imensa hipocrisia.

m/28.10.2009.

MANDALA

Levo aonde quer que for minha mandala sagrada e que por mais que exposta será sempre secreta. Nela dormem, germinam e se renovam os mais finos e densos pólens, os mais íntimos e vulgares movimentos cíclicos dos meus avatares. Em minha mandala o meu tântrico e a minha cabala, os pensamentos cínicos e os anseios singulares, o movimento sísmico e um nunca acabar de espreguiçares. Vivo, sou o mais o mais rétil e o mais langüezo, o mais réptil e o mais inseto, o mais estranho e o mais teu conhecido, teu vizinho quase amigo, teu amante quase amor, teu prestidigitador. Quando morto sou zil zeros além da vírgula e sempre, até para mim, será difícil alcançar este meu menos infinito. Às vezes, a morte me cala. É que às vezes eu morro sim, assim como quem não quer nada, me deixo levar na enxurrada, vazo pelas bocas de lobos, pelos ralos, pelas valas, pelos vãos no covil do vil poderoso, pelas vinhas nas campanhas dos mais sábios larápios. Deito e rolo sem eira nem teia nem veia, sem telha, aranha ou segunda-feira para começar a semana. Quando eu morro sou de uma timidez tamanha que nem te visito: sei onde estás, sei tua sombra, sei o caminho. Mas me apego só ao que tu me deste, não ao que posso querer escondido. E o que era vidro e se quebrou me corta os olhos imediatamente, quando acordo de minhas mortes não há sinal dos infernos em minhas vestes. Volto a ser aquele ser soberano que diz que te ama, prova que é verdade, roga teu carinho. No entanto em minha mandala guardo a febre e a dor de todas as pestes, trago os climas das monções, o terror das pragas e a poesia mais amarga que é essa, a do meu amor agreste. Quando morto tenho a vida que me desmente, quando morto nada tenho e não sou quem sente. Quando vivo quero o infinito a dente e olho, quando morto tenho o consolo de não precisar mais ser prudente. Minha mandala é o centro do alvo de quem sou e sempre serei. Minha mandala é o centro da alma de quem quer que eu venha a ser além.

marco/02.11.2009.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

UM BEIJO

quero um beijo molhado.
como se fosse terça-feira do próximo carnaval,
cheio de saliva, cerveja, suor.
e salgado do mar diante e em nós.
e doce como o sonho bom que teima em voltar,
assim como os pesadelos.
ruim como a viagem má, bom como um lance legal.
quero um beijo abstrato e bem carnal:
estrelas no céu da boca e células se contorcendo,
linguagens de todos os países

e ritmos e cores e doses,
e vidas e, ainda mais pensar se
se consegue a compreensão do infinito.
quero um beijo mítico. um gesto místico, idílico.
quero um beijo inédito, cálido ou fervente,
mágico ou concreto, dramático e sem lástima
como devem ser os mais deliciosos e curtidos beijos.
elástico e com estática como servem a nós
os mais preciosos e elétricos e relaxantes beijos.
quero um beijo; um só talvez – talvez – um só baste.
se for haste para tanta bandeira

que ainda há que se altear,
para cantos e prantos e mistérios e quebrantos;
para quantos espantos me leva

a fascinidade de um beijo?
quero um beijo; talvez muitos mais,
sem ser talvez demais,
sem se chegar ao cúmulo.
mas se for um movimento puro

de nervos e músculos,
porque não um beijo maiúsculo?
quero um beijo feminino, um beijo másculo,
um beijo que uma o que eu penso e o que eu acho,
o que eu creio e o que eu devaneio,
o lazer e o trágico, o humor e o dramático,
o real e o mágico, o prazer e o que lastimo,
eu que sou um náufrago mas nado

e não me dissemino.
quero um beijo, feito primeiro e único,
em meus lábios grossos
os teus lábios lindos.

marco/30.10.2009.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

TE DIRIA

quando fico sem texto eu arrumo um pretexto para uma pobre rima rica, para um beijo em sua testa ou seu queixo, já que sua boca está além do que pode o meu desejo, além do que possuo de malícia lógica ou estratégia mística.
mas é que olhos de água são poucos para minha sede, são poucos os que me detém, e muito menos aqueles que me podem fazer bem. quando cismo comigo mesmo eu nem caço e nem pesco, nem laço nem nó, nem me arrebato mas também não me impeço. mas seus olhos são, silenciosamente, mil molhos de chaves a me chamar a atenção. mais que olhos são silvos, de repente, você simplesmente me move sem me dizer a direção.
boa sensação para quem, que nem eu, já sabe de cor as palavras que ainda nem percebeu que seriam aquelas próprias para esse momento. boa emoção para quem, e nem sei quem, já sabe no couro as palavras que ainda não aconteceram na boca, na língua, expostas como saliva vazando dos lábios mas que soam perfeitas.
no ar. quando fico sem versos eu fico no ar. nada melhor para um perdido do que uma rima em ar. são tantos os verbos e as verborragias. mas não esqueço do seu olho, me tolho de esperar ver de novo, nesse espelho, novas crases em minha futura alegria.
quando fico sem texto não aprumo sentidos e deixo ao relento os versos que te diria.

marco/26.10.2009.
PRAZERES

quero te dizer milhões de vezes: não faça cerimônia, lamba os beiços ou dê de ombros, faça as unhas em minha sala: tenho também éter e amônia, além da usual acetona, tenho divãs e soumiers, sofás, namoradeiras e banquinhos de pau. venha sempre, a pausa pode ser breve ou o vôo longo, a gente pode usar o tapete ou um ultraleve, para flainar pelo espaço que a todos pertence. mas também não há nada que impeça de treparmos no muro, no claro ou no escuro, a cor melhor será aquela que nos apetece.
quero te dizer que sempre te desejo: bons votos, boas vindas e retornos, novas sílabas e frases feitas para cada oportunidade: mãe de cada porto. te desejo sempre e muito: boas falas e destinos, fadas árabes, gnomos palestinos, ou tudo ao contrário se contudo não nos desfizermos de nossos instintos. tudo ao mesmo tempo se nós não demolirmos nossos nobres recintos, aonde recebemos um ao outro com tatos e toques recíprocos. um desejo é sempre um beijo em um rastro de uma estrela cadente. mas eu te desejo: vinhos finos e água ardente, o meu uivo e o seu sibilar de serpente, entre muitos nós somos uns que se compreendem, uns tantos que temem o dilúvio, uns poucos que amam as enchentes.
quero te ter mais uns zilhões de vezes.

marco/26.10.2009.

CHORUS

Choro por muitos amores. Quase sempre por amores que seriam casais. Não casuais: casais mesmo. E comigo. Não por amores de amigos, pois os que vibro se dá a contar nos dedos de somente uma das mãos. E estes não me fazem vir a choro, a não ser quando uma canção é por demais bela e lastimosa ou quando um deles morre.
Choro porque me faz bem. Me sinto um completo homem, dono de todas as suas possibilidades, inclusive chorar; e ainda me ajuda e muito a descongestionar a minha crônica sinusite, me lava os olhos como nenhum colírio indicado para glaucoma me lavaria ou lavará.
Choro por muitas coisas e em várias circunstâncias. Chôro faz bem, lava além das retinas, a alma; chôro faz vir à tona a tônica, sair dos bolsos os lenços, feitos para saudações: de adeuses mas também de benvindos acenos. Choro porque é bom, é bem, e não há nada em nenhum mundo que se desacorde da lágrima – suor do olho – quando é sincera e potente e desce pela face numa beleza que só quem sente o contato da água com a pele é que sabe o que é realmente belo. Eu sou belo por saber chorar quando devo, quando sou credor, quando me impulsiona qualquer coisa parecida com o amor.
Choro em coros e minhas terças e quintas vozes, todas sofrem e riem juntas, choro porque é do ser humano amar e chorar.
Choro porque imploro emoções, só posso viver se vários tons de sons e pessoas e ritmos e estímulos múltiplos e gurus e discípulos me fizerem constantemente renovar meu ato público de chorar sem ter o porquê e, é claro, sem exatamente nada ter o que explicar.
Choro, nem sei nem devo saber porque, o por qual ou aquele ou aquela, ou se era animal ou gente, ou será, espírito ou mineral de pedra; nem nunca soube porque choro assim à toa e às vezes de propósito lógico, pois é a hora que faz o homem. E a mulher e os idosos e os meninos: quando toca o sino é aurora ou arrebol.

[ando chorando cada vez menos. mesmo parado, ando preocupado com essa estranheza. talvez por isso venha engordando: retendo água no organismo, talvez uma secreta estratégia de suicídio por afogamento.]


marco/22.10.2009.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

SEMEADURA

não devo nada e por isso é que é mais gostoso, mais engenhoso, mais saboroso escrever para quem pensa que é secreto mas que se desmente sem desgosto por que sabe o quem é, a que vem, ao que vai, sabe que me sela e me escoicea, sabe que serve de trela de quem nem te alardeia, sabidamente se esquece entre fusas e colcheias, entre ralas e relas, entre casas e pomares repletos de mangueiras. para melhor fazer a sala e o sabor das compotas de prazeres que brotam das jarras mas também das taças entre as pernas onde o amor e o tesão e se derramam e se despenteiam.
não peço nada e por isso é pavoroso quando tu não me vens numa sexta-feira. e deixa um fim de semana vago como um fogofátuo entre a nova e a lua cheia. por isso posso ser romântico, semântico, rimado, risonho, climático ou bisonho, conforme eu mesmo queira. é bom escrever a quem sei que me lê mesmo que em entrelinhas, mesmo que seja a senha e não a chave o que nos entrave, mesmo que corra o risco de que você me escrave ou que eu te seja um serviçal em retilíneas.
adoro inventar palavras, caminhos na estrada, não quero de ninguém nada e se te dou guarita é porque sinto que é minha sina, meu momento. não prezo juros, dinheiros, cobres, pratas, ouros, mentiras, tenho ótimos parceiros. no tom e na melodia, no verso e na harmonia, melhor é criar destinos do que ser desfiladeiro.
melhor é singrar os mares se afogando ilha a ilha, náufrago sobrevivendo a cada maré e lua: ser momento, ter passado, fazer o futuro respirar a todo tempo.
por isso é que me iluminas, por isso farol te vejo, por tudo que é mais secreto, por tudo que é mais sagrado, por isso me queres próximo, por isso te espero sempre, por tudo que é mais mistério: um fruto de uma semente.

marco/20.10.2009.
MÍNGUA

abri porões e sótãos e neles arcas e armários e baús e nestes gavetas e escaninhos e até fundos falsos. abri anos e anos, tempos e tempos, sentimentos já sem sentido, sentidos já esquecidos, esquecimentos que merecem ser lembrados, lembranças de tempos e anos e vidas atrás.
[às vezes parece que já tive muitas vidas, nesta só. vai ver que é por aí que muitos crêem e sentem outras vidas em si. e sempre me pergunto porque não me tocam, nunca, as minhas vidas futuras.]
abri as narinas e os ouvidos e os poros e as papilas e as pupilas e em tudo que me invadiu me viu numa vida que nem sei se foi a minha, se me é própria, apropriada ao que penso que sou hoje, ao que fugi do ontem, ao que poderia me ver amanhã. pilhéria pura, descompasso de palavras na boca crua da manhã que quer saber mais é de ganhar algum dinheiro que seja limpo ou sujo mas que valha uma rodada de birita ou a metade do aluguel ou a deitada de uma puta ou uma pastel de feira em plena quarta-feira no centro de uma avenida.
penei mais de cinqüenta anos para escrever bem e bonito. então não me venham com tremas do word window ou com a melhor reforma ortográfica, eu nem te ligo.
fechei as abas e os olhos e os tímpanos e a boca e as hastes e bandeiras e recolhi as mãos e os olhares e os pensamentos e me desfiz dos adeuses e não soletrei novas boas vindas e me agachei para execrar meu ódio e minhas paixões, entre minhas pernas, não em um buraco mas em um abismo para que de minhas merdas nem vestígios nem remelas nem mesmo restassem ínguas.
hoje sei, só sou humano porque ainda alguém tem, guardar de mim, pra mim, alguns números: senhas para dorsais decúbitos.
preferiria as cinzas.

marco/19/10/2009.
POSSESSO

eu sonhei não com você, como eu gostaria, mas comigo mesmo. e nele, não em mim mas no sonho, eu dizia pra mim mesmo: que me concentrasse somente no que eu acho que são minhas artes, e que depois, dias ou séculos, o resto viria, que tudo mais que foi pro inferno um dia retornaria nem que fosse pra me soar um não a mais que cordial bom dia! e mais: pra eu não me importar ou exportar com você, que me sentiria mais que aliviado, levitando na minha própria energia.
como já estava farto dessa rima de ia, ia, Iaiá, Iaiá, acordei. mas ainda era noite e o cansaço me derruba e o sonho persistia. de tanto exausto de ver a minha própria cara me dizendo o que eu faria, quebrei o espelho do éter e também o do banheiro, não me cortei por um triz, porque quando quero também posso ser um razoável atriz.
[ou um à tõa falando nem coisa com lousa, lembrando aquela saideira que diz: não me importa se a mula é manca, o que eu quero é rosetar. por isso, minha cabrocha, sem você eu vou até ao Irajá. não me importa se a mula manque, nem saber de quem é o velório, o que eu quero é chorar.]
eu sonhei que me encontrei em uma esquina e não tinha o que dizer. sabia que eu me reconheceria, do absurdo do encontro, cara a cara, mais de uma vez eu mesmo em um mesmo dia. me encontrar comigo é estranho e não benevolente, é se bater comigo e vê: um estranho acidente. e não me socorro, não me falsifico em ardilosos consolos entremeados aos panos quentes; me olho fundo no olho e não vejo o que quero e nem quero o que vejo em minha mente. e aí que sinal, que cúmulo de tensão animal vai me fazer sair ou ir ao encontro de mim mesmo? de que túmulo ressuscitar o futuro que eu quero para mim, sem ser nunca mais o mesmo? que súmula vai abrigar a minha história, essa luta desse eu com esse tal, esse músculo infernal que me escoicea e esse nervo desigual que me aferventa as têmporas, me fazendo crer em sobrenatural, me criando lendas como se já não me bastasse o tempo e suas teias. que acúmulo é esse e de quanto tempo vem?
me conheço há bastante tempo e às teias também. as minhas e as suas: armadilhas, alçapões, fundos falsos, mímica e vetriloquia. por isso sei, não sonho: não te pertenço mas te dou lágrimas e lenços. eu me endereço, por isso me dôo em múltiplos terços.
você se basta, eu me mereço.


marco/10.2009.
ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE

como não vamos morrer juntos, no way, até que a morte nos separe eu vou te infernizar de recados sem realçar seus pecados, sem alisar o seu ego, mesmo porque você nunca saberá de onde surgem esses ecos, que vem aos cacos, cacarejando resmungos só porque de jeito algum nós vamos morrer juntos nem muito menos unidos.
mais hei de ser fiel, hei de ser fatal, até à morte, hei de ser um ser comum, ocidental, que ama uma pessoa e porque ama perdoa, este abestalhado que há de ser fiel, de ser fatal, até o final, há de ser um ser, sem ti, à toa, bisonho, bastardo, banal.
até que a morte nos repare.

marco/09.2009.
COM A CARA LIMPA ENQUANTO MINTO*

sinto nas entranhas uma desgraçada e imensa saudade que me causa estertores, que me traz náuseas, me retém o controle motor, sinto um naufrágio e uma falta que asfixia, sinto tudo de todo e muito e no entanto minto.
ninguém sabe das mínimas ilhas onde habitam seres completamente ignóbeis do que é amor, ninguém sabe dessas minhas ilhas, das falésias de onde a dor desaba e vai por terra tentar se livrar da sede no mar.
sinto na espinha essa desregrada e violenta saudade que me aponta o dedo e me acusa de desertor, só porque não pude mais sofrer, não tive como reaver o amor, passar em revista exércitos de erros, não persisti até o último fôlego, degolei o infinito.
por isso minto que é saudade a dor do fracasso que sinto
.

marco/09.2009
*Paulo Vanzolini.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

AUTO AJUDA, AUTO ESTIMA, ALTAS FRASES, ALTAS RIMAS

se alguém tem tantos anos que já sabe que não vai mudar o mundo, nem transformar sua família, nem vai ajudar nos rumos de seu país, ou estado, ou cidade, se já percebeu que não vai modificar nem os mandamentos do condomínio do seu prédio, então é com você que eu falo agora:
se fie nos pequenos momentos, aquela lembrança aprisionada mas que tem um sabor tão raro, hoje em dia: deixe ela vir e depois voar. o seu dia vai continuar o mesmo dia, com os problemas e aporrinhações dele. por isso, seja seu, não do seus dias. aquele amor que não deu certo mas que prometia, que seria diferente sendo ela uma sereia ou uma enguia, deixe que ele aflore na memória, não se subestime. aquela viagem para conhecer o cavalo de tróia e as esfinges das pirâmides ameríndias: deixe que ela volte à baila, baile sobre o itinerário, mesmo em braile leia o que pode ser feito se você pintar por lá por essas quintas. confie na imaginação, afie os fios para a qualquer momento contatar uma eletrocutação ou um novelo de novas lãs ou ainda um pavio para novas velas. em sete dias você não refaz o mundo, não desfaz toda a sua vida, não é capaz quase coisa nenhuma, você e eu, somos pedras vencidas. então se grude com chiclete nas coisas que você vai designar que sejam sagradas, benditas, prazerosas, para você infinitas. se apure com as impurezas e faça sua prece: todo dia com menos pressa, menos penitência, mais poesia; todo santo dia-a-dia com mais amores, mais promissores, menos manias,

marco/09.09.09.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sentimento Mestiço

É como se eu tivesse alguma obrigação de ainda responder algo.
Como se houvesse uma argüição que me fizesse atender ao chamado,
procurar, ver de onde vem essa voz que ruge,
como e se precisasse urgentemente subir ao palco e declamar
o último subterfúgio para me livrar do mal que benze e também do bem nocivo.
É como se eu não conseguisse verter a súmula do meu próprio vício.
É como se fosse isso, o que agora vivo, um derradeiro choro
e não o início de um novo sorriso.

m/04.10.09.
SEM MAIS,
tenho que confessar, ainda que me doam os calos, adoro esse jogo de palavras cruzadas, senhas de copas, ouros, paus e espadas, cartas embaralhadas sem mãos certas, quem sabe aonde vai chegar? Tenho que me saciar dessa delícia de beijar sem ter os lábios, dessa carícia de tocar sem ter a pele, desse impávido colosso que é cantar um hino sem ter a terra mãe, desse perfeito e genuíno amor feito de imaculadas manchas, insistentes e resistentes manchas em cada lençol não usado, em toda toalha descartada, em qualquer lenço que não guarde lágrimas.
Tenho que te falar, ainda que me moa a anca, adoro sentar nesse trono e dividir com você o poder de poder administrar as palavras. e não como os executivos – termo que sempre me lembra carrascos, nem sei bem porque – nem como os tais sensitivos do apocalipse de transanteontem. Mas tenho que sublimar e tentar uma palavra sub liminar e tentar, mesmo toscamente, sublinhar, que gosto de confessar: que hoje a vida não me impõe nada, que agora a morte não me mete medo, que não há mais tempo para exageros, embora ainda e muito tanto e mais, possa gostar de encaixar em você feito uma peça de quebra-cabeça, como uma nuvem em outra nuvem em plena desavença, como um sonho que perdura à noite e sabe que a manhã é sua última sentença.
Tenho que te dizer que é nobre, sã, amiga, vil e vã, amorosa e desatinada nossa agora acontecência. Tenho que te dizer que posso mesmo amar quem de repente some, e que só me responde quando lhe dá na telha. Tenho que reafirmar que a faísca que sai do gume da lâmina da palavra, quando é bem afiada, é o que me incendeia.
Tenho sempre que dizer, ao invés de adeus, até logo. Pois é de teia que vive a aranha, e é da pólvora que brotam os fogos, e é do não que surge algum deus, e é dos fiéis que urgem os ateus, e é a astúcia que inventa a manha, e é da minúcia que se dá a nódoa, é será sempre a minha palavra que irá romper, conjunta a sua, todo e qualquer ódio e quanto de desesperança, altivez, prepotência e desigualdade.
Tenho que te pedir que nossas palavras, mesmo de amores, sejam sempre de certezas e sem saudades.

marco/09.10.2009.

BHELEZA

tenho um longo fio que me liga até você. tenho um pavio curto que me faz explodir de paixão ou raiva ou ternura ou desprezo ou desventura por você. Tenho todos os sentidos pra te dizer o que quero gritar, pra te berrar o que não, você não vai nem querer ouvir: tenho o destino palmado em minhas mãos e não é você que vai me desmerecer nem me fazer desistir. outra pessoa sim mas não você.
você teve o seu tempo, usou como quis, você teve seu tento marcou como pode a minha pessoa, agora não pode mais nem tentar me fazer um ser feliz. não é mais da sua alçada qualquer vôo que arraste as asas por perto de mim. você teve sua prova, se não gostou tudo bem, só não me fique lambendo ao mesmo tempo que me saliva desdém.
você teve muitas provas: dos nove e fora, vestibulares carícias, teve primeiras, segundas e terceiras épocas. passou por todas e não disse a que veio, reprovada em corpos, almas, pernas, bundas, seios. suas armas não servem aos arados com os quais semeio. você teve muitas sovas e não aprendeu com as surras que tomou, vai às turras até as covas que você mesmo cavou, vai sem ovas querer gerar sem natura um novo gênero de amor.
um amor de ser sozinho, um amor só e somente. um amor burro e dormente, séde de tudo que trai e mente o que seria o amor.
tenho um imã poderoso que me atrai até você. mas tenho uma lima que aniquila toda quina, toda menção assassina, toda missão que domina, finda toda sina se, por acaso ou distração, meu coração ainda cisma qualquer rima com você.
mesmo porque não me chamo arco e nem você é tesa.
mesmo porque não me chamo barco e nem você represa.


marco/03.10.2009.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

BRASAS E CINZAS

para ser muito mesmo exclusivamente sincero com você, eu gostaria que o mundo se danasse e que restasse só eu e você para decidirmos o bem da humanidade.
[não, não gostei. vamos começar de novo.]
vamos começar de novo outra vez novamente, com o mesmo amor, menos tragédias, mais carícias, menos remédios, mais sensações empíricas. vamos começar de novo? acho que não embora ache que devemos sim. perco o meu não para poder achar você num talvez, talvez num sim.
para ser muito mesmo e o máximo indelevelmente sincero com você: eu gostaria de ver duas pessoas que se amam se reencontrarem e se amarem mesmo que por uns poucos segundos, mesmo que seus impulsos cessassem depois de alguns freimes e isso resultasse em nada, que toda a anterior vida se desfizesse em caspas dissolúveis por qualquer umidade, sob qualquer mal súbito.
seria um retorno para o nunca, uma nova passagem para o nada, uma sede sem secura, uma gastura sem fome.
mas para ser muito mesmo mais do que indubitavelmente sincero com nós dois: como é mesmo o seu nome?

marco/19.09.2009.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O AMOR É ÓTIMO

amor é um bólido. e quando vem e atravessa bem no centro de seus olhos, não tem deus que acuda, não há demônio que lhe dê remorsos.
amor é um boldo. chá que desremói o fígado e os intestinos, verde como a bílis ainda não madura. o amor é um soldo eterno e mal pago, peripécia, estrepolia, façanha e artimanha, o amor é um rodo enredando tudo, toda água: de lágrima, de suor, de banho, de chuva, vai cair no seu ralo.
o amor é um todo que quando quer se faz raso ou não dá pé, o amor endiabrado nem sabe o que quer, o que dá, o que é mel, o que é hortelã, o que é aniz, o que é azedume.
o amor não tem prumo, o amor te persegue, vira lata, enche açude, te agadanha, te faz de pasto e estrume, se desmede, te traz trunfo, te promete mundos e perfumes e te ganha a flor da pele, os músculos, os orifícios, a cabeça vira febre e você é só mais um, é só mais uma, que se abre em gomos em seus gumes.
o amor é sólido, fingido fluido. o amor é inóspito, mendigo ardiloso. pede um tostão quer o bolso, dá um alô, fica amigo. quer seu amor te lambuza com méis e anéis e chuvas de farturas. quer ir embora te joga pro lado, esquece do vale, da fatura, da fratura em tua amargura.
o amor é cólico. infestação infectada de bem querer, indigestão, poder, e ódio. o amor é máximo do abismo que eu quero ter próximo. bicho com raiva humana, cão amestrado pela mente insana, o amor é um espólio que ainda desejo. eu e minha fraca fé e meus esguios medos, eu e meu pavio curto neste velório sem deus ou mais breu.

marco/06.10.2009.
VOYEUR

gosto de te olhar, olho no olho, de longe ou perto, gosto de encarar a verdade de frente, a vaidade de rente, gosto de ter aos meus olhos seus olhos diretos, volúveis, rápidos, piscantes.
gosto de não ter mais para onde olhar que senão para a sua cara, e na sua cara seus olhos faiscantes de segredos e injúrias e volúpias e asperezas que nem ninguém desconfia que hão.
te olhar como aos maciços da serra dos órgãos ou da chapada diamantina. te olhar pelo olho mágico ou passando a galope te entrever entre as crinas. ser um ser não ótimo mas ótico, te reter na rima óbvia que são minhas retinas.
gosto que me enrosco de te ver me dar as caras, às claras, te prever dizer às noites, às escuras, que também és solitária mas não precisas de mim. gosto de inventar mil coisas de doçura, de carinhos, de formosuras, mil e um troços e troças, rispidezes, angusturas, sem te dar, sem me doar, sem me pedires.
como se você as tivesse, como se você precisasse, como se eu me saciasse, como se você realmente existisse.

marco/04.10.2009.

domingo, 4 de outubro de 2009

video

poema de Marco Valença lido por Marilda Ormy. Muito em breve também em http://www.marcovalenca.com/

CARTA & GRAFIA

se cada pingo
da pena
fundasse uma ilha
essa imensa baía
teria dez rosários
cem verbenas
mil arcos de futuro
em uma só página.

se cada ponto
fosse um conto
meu milionário sonho
nos daria
um infinito
arquipélago de alegria.

Vampiro

AMOR É LENDA

o amor quando vem à raia
deixa rendas de espuma nas areias,
prendas de bonança ou de tormentas
e minhas praias
tanto faz as enormes
como as pequeninas
ficam ornadas de bolhas,
sargaços e palhas,
luzem verdades e lendas
mas tanto faz
se depois me virão,
depois do verão,
as incomensuráveis tragédias
ou as pequenas ruínas

novo amor é nova senda
morto amor uma incelença.


"Te amo e o tempo não varreu isso de mim."

marco/09.2009.