sexta-feira, 30 de outubro de 2009

UM BEIJO

quero um beijo molhado.
como se fosse terça-feira do próximo carnaval,
cheio de saliva, cerveja, suor.
e salgado do mar diante e em nós.
e doce como o sonho bom que teima em voltar,
assim como os pesadelos.
ruim como a viagem má, bom como um lance legal.
quero um beijo abstrato e bem carnal:
estrelas no céu da boca e células se contorcendo,
linguagens de todos os países

e ritmos e cores e doses,
e vidas e, ainda mais pensar se
se consegue a compreensão do infinito.
quero um beijo mítico. um gesto místico, idílico.
quero um beijo inédito, cálido ou fervente,
mágico ou concreto, dramático e sem lástima
como devem ser os mais deliciosos e curtidos beijos.
elástico e com estática como servem a nós
os mais preciosos e elétricos e relaxantes beijos.
quero um beijo; um só talvez – talvez – um só baste.
se for haste para tanta bandeira

que ainda há que se altear,
para cantos e prantos e mistérios e quebrantos;
para quantos espantos me leva

a fascinidade de um beijo?
quero um beijo; talvez muitos mais,
sem ser talvez demais,
sem se chegar ao cúmulo.
mas se for um movimento puro

de nervos e músculos,
porque não um beijo maiúsculo?
quero um beijo feminino, um beijo másculo,
um beijo que uma o que eu penso e o que eu acho,
o que eu creio e o que eu devaneio,
o lazer e o trágico, o humor e o dramático,
o real e o mágico, o prazer e o que lastimo,
eu que sou um náufrago mas nado

e não me dissemino.
quero um beijo, feito primeiro e único,
em meus lábios grossos
os teus lábios lindos.

marco/30.10.2009.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

TE DIRIA

quando fico sem texto eu arrumo um pretexto para uma pobre rima rica, para um beijo em sua testa ou seu queixo, já que sua boca está além do que pode o meu desejo, além do que possuo de malícia lógica ou estratégia mística.
mas é que olhos de água são poucos para minha sede, são poucos os que me detém, e muito menos aqueles que me podem fazer bem. quando cismo comigo mesmo eu nem caço e nem pesco, nem laço nem nó, nem me arrebato mas também não me impeço. mas seus olhos são, silenciosamente, mil molhos de chaves a me chamar a atenção. mais que olhos são silvos, de repente, você simplesmente me move sem me dizer a direção.
boa sensação para quem, que nem eu, já sabe de cor as palavras que ainda nem percebeu que seriam aquelas próprias para esse momento. boa emoção para quem, e nem sei quem, já sabe no couro as palavras que ainda não aconteceram na boca, na língua, expostas como saliva vazando dos lábios mas que soam perfeitas.
no ar. quando fico sem versos eu fico no ar. nada melhor para um perdido do que uma rima em ar. são tantos os verbos e as verborragias. mas não esqueço do seu olho, me tolho de esperar ver de novo, nesse espelho, novas crases em minha futura alegria.
quando fico sem texto não aprumo sentidos e deixo ao relento os versos que te diria.

marco/26.10.2009.
PRAZERES

quero te dizer milhões de vezes: não faça cerimônia, lamba os beiços ou dê de ombros, faça as unhas em minha sala: tenho também éter e amônia, além da usual acetona, tenho divãs e soumiers, sofás, namoradeiras e banquinhos de pau. venha sempre, a pausa pode ser breve ou o vôo longo, a gente pode usar o tapete ou um ultraleve, para flainar pelo espaço que a todos pertence. mas também não há nada que impeça de treparmos no muro, no claro ou no escuro, a cor melhor será aquela que nos apetece.
quero te dizer que sempre te desejo: bons votos, boas vindas e retornos, novas sílabas e frases feitas para cada oportunidade: mãe de cada porto. te desejo sempre e muito: boas falas e destinos, fadas árabes, gnomos palestinos, ou tudo ao contrário se contudo não nos desfizermos de nossos instintos. tudo ao mesmo tempo se nós não demolirmos nossos nobres recintos, aonde recebemos um ao outro com tatos e toques recíprocos. um desejo é sempre um beijo em um rastro de uma estrela cadente. mas eu te desejo: vinhos finos e água ardente, o meu uivo e o seu sibilar de serpente, entre muitos nós somos uns que se compreendem, uns tantos que temem o dilúvio, uns poucos que amam as enchentes.
quero te ter mais uns zilhões de vezes.

marco/26.10.2009.

CHORUS

Choro por muitos amores. Quase sempre por amores que seriam casais. Não casuais: casais mesmo. E comigo. Não por amores de amigos, pois os que vibro se dá a contar nos dedos de somente uma das mãos. E estes não me fazem vir a choro, a não ser quando uma canção é por demais bela e lastimosa ou quando um deles morre.
Choro porque me faz bem. Me sinto um completo homem, dono de todas as suas possibilidades, inclusive chorar; e ainda me ajuda e muito a descongestionar a minha crônica sinusite, me lava os olhos como nenhum colírio indicado para glaucoma me lavaria ou lavará.
Choro por muitas coisas e em várias circunstâncias. Chôro faz bem, lava além das retinas, a alma; chôro faz vir à tona a tônica, sair dos bolsos os lenços, feitos para saudações: de adeuses mas também de benvindos acenos. Choro porque é bom, é bem, e não há nada em nenhum mundo que se desacorde da lágrima – suor do olho – quando é sincera e potente e desce pela face numa beleza que só quem sente o contato da água com a pele é que sabe o que é realmente belo. Eu sou belo por saber chorar quando devo, quando sou credor, quando me impulsiona qualquer coisa parecida com o amor.
Choro em coros e minhas terças e quintas vozes, todas sofrem e riem juntas, choro porque é do ser humano amar e chorar.
Choro porque imploro emoções, só posso viver se vários tons de sons e pessoas e ritmos e estímulos múltiplos e gurus e discípulos me fizerem constantemente renovar meu ato público de chorar sem ter o porquê e, é claro, sem exatamente nada ter o que explicar.
Choro, nem sei nem devo saber porque, o por qual ou aquele ou aquela, ou se era animal ou gente, ou será, espírito ou mineral de pedra; nem nunca soube porque choro assim à toa e às vezes de propósito lógico, pois é a hora que faz o homem. E a mulher e os idosos e os meninos: quando toca o sino é aurora ou arrebol.

[ando chorando cada vez menos. mesmo parado, ando preocupado com essa estranheza. talvez por isso venha engordando: retendo água no organismo, talvez uma secreta estratégia de suicídio por afogamento.]


marco/22.10.2009.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

SEMEADURA

não devo nada e por isso é que é mais gostoso, mais engenhoso, mais saboroso escrever para quem pensa que é secreto mas que se desmente sem desgosto por que sabe o quem é, a que vem, ao que vai, sabe que me sela e me escoicea, sabe que serve de trela de quem nem te alardeia, sabidamente se esquece entre fusas e colcheias, entre ralas e relas, entre casas e pomares repletos de mangueiras. para melhor fazer a sala e o sabor das compotas de prazeres que brotam das jarras mas também das taças entre as pernas onde o amor e o tesão e se derramam e se despenteiam.
não peço nada e por isso é pavoroso quando tu não me vens numa sexta-feira. e deixa um fim de semana vago como um fogofátuo entre a nova e a lua cheia. por isso posso ser romântico, semântico, rimado, risonho, climático ou bisonho, conforme eu mesmo queira. é bom escrever a quem sei que me lê mesmo que em entrelinhas, mesmo que seja a senha e não a chave o que nos entrave, mesmo que corra o risco de que você me escrave ou que eu te seja um serviçal em retilíneas.
adoro inventar palavras, caminhos na estrada, não quero de ninguém nada e se te dou guarita é porque sinto que é minha sina, meu momento. não prezo juros, dinheiros, cobres, pratas, ouros, mentiras, tenho ótimos parceiros. no tom e na melodia, no verso e na harmonia, melhor é criar destinos do que ser desfiladeiro.
melhor é singrar os mares se afogando ilha a ilha, náufrago sobrevivendo a cada maré e lua: ser momento, ter passado, fazer o futuro respirar a todo tempo.
por isso é que me iluminas, por isso farol te vejo, por tudo que é mais secreto, por tudo que é mais sagrado, por isso me queres próximo, por isso te espero sempre, por tudo que é mais mistério: um fruto de uma semente.

marco/20.10.2009.
MÍNGUA

abri porões e sótãos e neles arcas e armários e baús e nestes gavetas e escaninhos e até fundos falsos. abri anos e anos, tempos e tempos, sentimentos já sem sentido, sentidos já esquecidos, esquecimentos que merecem ser lembrados, lembranças de tempos e anos e vidas atrás.
[às vezes parece que já tive muitas vidas, nesta só. vai ver que é por aí que muitos crêem e sentem outras vidas em si. e sempre me pergunto porque não me tocam, nunca, as minhas vidas futuras.]
abri as narinas e os ouvidos e os poros e as papilas e as pupilas e em tudo que me invadiu me viu numa vida que nem sei se foi a minha, se me é própria, apropriada ao que penso que sou hoje, ao que fugi do ontem, ao que poderia me ver amanhã. pilhéria pura, descompasso de palavras na boca crua da manhã que quer saber mais é de ganhar algum dinheiro que seja limpo ou sujo mas que valha uma rodada de birita ou a metade do aluguel ou a deitada de uma puta ou uma pastel de feira em plena quarta-feira no centro de uma avenida.
penei mais de cinqüenta anos para escrever bem e bonito. então não me venham com tremas do word window ou com a melhor reforma ortográfica, eu nem te ligo.
fechei as abas e os olhos e os tímpanos e a boca e as hastes e bandeiras e recolhi as mãos e os olhares e os pensamentos e me desfiz dos adeuses e não soletrei novas boas vindas e me agachei para execrar meu ódio e minhas paixões, entre minhas pernas, não em um buraco mas em um abismo para que de minhas merdas nem vestígios nem remelas nem mesmo restassem ínguas.
hoje sei, só sou humano porque ainda alguém tem, guardar de mim, pra mim, alguns números: senhas para dorsais decúbitos.
preferiria as cinzas.

marco/19/10/2009.
POSSESSO

eu sonhei não com você, como eu gostaria, mas comigo mesmo. e nele, não em mim mas no sonho, eu dizia pra mim mesmo: que me concentrasse somente no que eu acho que são minhas artes, e que depois, dias ou séculos, o resto viria, que tudo mais que foi pro inferno um dia retornaria nem que fosse pra me soar um não a mais que cordial bom dia! e mais: pra eu não me importar ou exportar com você, que me sentiria mais que aliviado, levitando na minha própria energia.
como já estava farto dessa rima de ia, ia, Iaiá, Iaiá, acordei. mas ainda era noite e o cansaço me derruba e o sonho persistia. de tanto exausto de ver a minha própria cara me dizendo o que eu faria, quebrei o espelho do éter e também o do banheiro, não me cortei por um triz, porque quando quero também posso ser um razoável atriz.
[ou um à tõa falando nem coisa com lousa, lembrando aquela saideira que diz: não me importa se a mula é manca, o que eu quero é rosetar. por isso, minha cabrocha, sem você eu vou até ao Irajá. não me importa se a mula manque, nem saber de quem é o velório, o que eu quero é chorar.]
eu sonhei que me encontrei em uma esquina e não tinha o que dizer. sabia que eu me reconheceria, do absurdo do encontro, cara a cara, mais de uma vez eu mesmo em um mesmo dia. me encontrar comigo é estranho e não benevolente, é se bater comigo e vê: um estranho acidente. e não me socorro, não me falsifico em ardilosos consolos entremeados aos panos quentes; me olho fundo no olho e não vejo o que quero e nem quero o que vejo em minha mente. e aí que sinal, que cúmulo de tensão animal vai me fazer sair ou ir ao encontro de mim mesmo? de que túmulo ressuscitar o futuro que eu quero para mim, sem ser nunca mais o mesmo? que súmula vai abrigar a minha história, essa luta desse eu com esse tal, esse músculo infernal que me escoicea e esse nervo desigual que me aferventa as têmporas, me fazendo crer em sobrenatural, me criando lendas como se já não me bastasse o tempo e suas teias. que acúmulo é esse e de quanto tempo vem?
me conheço há bastante tempo e às teias também. as minhas e as suas: armadilhas, alçapões, fundos falsos, mímica e vetriloquia. por isso sei, não sonho: não te pertenço mas te dou lágrimas e lenços. eu me endereço, por isso me dôo em múltiplos terços.
você se basta, eu me mereço.


marco/10.2009.
ATÉ QUE A MORTE NOS SEPARE

como não vamos morrer juntos, no way, até que a morte nos separe eu vou te infernizar de recados sem realçar seus pecados, sem alisar o seu ego, mesmo porque você nunca saberá de onde surgem esses ecos, que vem aos cacos, cacarejando resmungos só porque de jeito algum nós vamos morrer juntos nem muito menos unidos.
mais hei de ser fiel, hei de ser fatal, até à morte, hei de ser um ser comum, ocidental, que ama uma pessoa e porque ama perdoa, este abestalhado que há de ser fiel, de ser fatal, até o final, há de ser um ser, sem ti, à toa, bisonho, bastardo, banal.
até que a morte nos repare.

marco/09.2009.
COM A CARA LIMPA ENQUANTO MINTO*

sinto nas entranhas uma desgraçada e imensa saudade que me causa estertores, que me traz náuseas, me retém o controle motor, sinto um naufrágio e uma falta que asfixia, sinto tudo de todo e muito e no entanto minto.
ninguém sabe das mínimas ilhas onde habitam seres completamente ignóbeis do que é amor, ninguém sabe dessas minhas ilhas, das falésias de onde a dor desaba e vai por terra tentar se livrar da sede no mar.
sinto na espinha essa desregrada e violenta saudade que me aponta o dedo e me acusa de desertor, só porque não pude mais sofrer, não tive como reaver o amor, passar em revista exércitos de erros, não persisti até o último fôlego, degolei o infinito.
por isso minto que é saudade a dor do fracasso que sinto
.

marco/09.2009
*Paulo Vanzolini.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

AUTO AJUDA, AUTO ESTIMA, ALTAS FRASES, ALTAS RIMAS

se alguém tem tantos anos que já sabe que não vai mudar o mundo, nem transformar sua família, nem vai ajudar nos rumos de seu país, ou estado, ou cidade, se já percebeu que não vai modificar nem os mandamentos do condomínio do seu prédio, então é com você que eu falo agora:
se fie nos pequenos momentos, aquela lembrança aprisionada mas que tem um sabor tão raro, hoje em dia: deixe ela vir e depois voar. o seu dia vai continuar o mesmo dia, com os problemas e aporrinhações dele. por isso, seja seu, não do seus dias. aquele amor que não deu certo mas que prometia, que seria diferente sendo ela uma sereia ou uma enguia, deixe que ele aflore na memória, não se subestime. aquela viagem para conhecer o cavalo de tróia e as esfinges das pirâmides ameríndias: deixe que ela volte à baila, baile sobre o itinerário, mesmo em braile leia o que pode ser feito se você pintar por lá por essas quintas. confie na imaginação, afie os fios para a qualquer momento contatar uma eletrocutação ou um novelo de novas lãs ou ainda um pavio para novas velas. em sete dias você não refaz o mundo, não desfaz toda a sua vida, não é capaz quase coisa nenhuma, você e eu, somos pedras vencidas. então se grude com chiclete nas coisas que você vai designar que sejam sagradas, benditas, prazerosas, para você infinitas. se apure com as impurezas e faça sua prece: todo dia com menos pressa, menos penitência, mais poesia; todo santo dia-a-dia com mais amores, mais promissores, menos manias,

marco/09.09.09.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Sentimento Mestiço

É como se eu tivesse alguma obrigação de ainda responder algo.
Como se houvesse uma argüição que me fizesse atender ao chamado,
procurar, ver de onde vem essa voz que ruge,
como e se precisasse urgentemente subir ao palco e declamar
o último subterfúgio para me livrar do mal que benze e também do bem nocivo.
É como se eu não conseguisse verter a súmula do meu próprio vício.
É como se fosse isso, o que agora vivo, um derradeiro choro
e não o início de um novo sorriso.

m/04.10.09.
SEM MAIS,
tenho que confessar, ainda que me doam os calos, adoro esse jogo de palavras cruzadas, senhas de copas, ouros, paus e espadas, cartas embaralhadas sem mãos certas, quem sabe aonde vai chegar? Tenho que me saciar dessa delícia de beijar sem ter os lábios, dessa carícia de tocar sem ter a pele, desse impávido colosso que é cantar um hino sem ter a terra mãe, desse perfeito e genuíno amor feito de imaculadas manchas, insistentes e resistentes manchas em cada lençol não usado, em toda toalha descartada, em qualquer lenço que não guarde lágrimas.
Tenho que te falar, ainda que me moa a anca, adoro sentar nesse trono e dividir com você o poder de poder administrar as palavras. e não como os executivos – termo que sempre me lembra carrascos, nem sei bem porque – nem como os tais sensitivos do apocalipse de transanteontem. Mas tenho que sublimar e tentar uma palavra sub liminar e tentar, mesmo toscamente, sublinhar, que gosto de confessar: que hoje a vida não me impõe nada, que agora a morte não me mete medo, que não há mais tempo para exageros, embora ainda e muito tanto e mais, possa gostar de encaixar em você feito uma peça de quebra-cabeça, como uma nuvem em outra nuvem em plena desavença, como um sonho que perdura à noite e sabe que a manhã é sua última sentença.
Tenho que te dizer que é nobre, sã, amiga, vil e vã, amorosa e desatinada nossa agora acontecência. Tenho que te dizer que posso mesmo amar quem de repente some, e que só me responde quando lhe dá na telha. Tenho que reafirmar que a faísca que sai do gume da lâmina da palavra, quando é bem afiada, é o que me incendeia.
Tenho sempre que dizer, ao invés de adeus, até logo. Pois é de teia que vive a aranha, e é da pólvora que brotam os fogos, e é do não que surge algum deus, e é dos fiéis que urgem os ateus, e é a astúcia que inventa a manha, e é da minúcia que se dá a nódoa, é será sempre a minha palavra que irá romper, conjunta a sua, todo e qualquer ódio e quanto de desesperança, altivez, prepotência e desigualdade.
Tenho que te pedir que nossas palavras, mesmo de amores, sejam sempre de certezas e sem saudades.

marco/09.10.2009.

BHELEZA

tenho um longo fio que me liga até você. tenho um pavio curto que me faz explodir de paixão ou raiva ou ternura ou desprezo ou desventura por você. Tenho todos os sentidos pra te dizer o que quero gritar, pra te berrar o que não, você não vai nem querer ouvir: tenho o destino palmado em minhas mãos e não é você que vai me desmerecer nem me fazer desistir. outra pessoa sim mas não você.
você teve o seu tempo, usou como quis, você teve seu tento marcou como pode a minha pessoa, agora não pode mais nem tentar me fazer um ser feliz. não é mais da sua alçada qualquer vôo que arraste as asas por perto de mim. você teve sua prova, se não gostou tudo bem, só não me fique lambendo ao mesmo tempo que me saliva desdém.
você teve muitas provas: dos nove e fora, vestibulares carícias, teve primeiras, segundas e terceiras épocas. passou por todas e não disse a que veio, reprovada em corpos, almas, pernas, bundas, seios. suas armas não servem aos arados com os quais semeio. você teve muitas sovas e não aprendeu com as surras que tomou, vai às turras até as covas que você mesmo cavou, vai sem ovas querer gerar sem natura um novo gênero de amor.
um amor de ser sozinho, um amor só e somente. um amor burro e dormente, séde de tudo que trai e mente o que seria o amor.
tenho um imã poderoso que me atrai até você. mas tenho uma lima que aniquila toda quina, toda menção assassina, toda missão que domina, finda toda sina se, por acaso ou distração, meu coração ainda cisma qualquer rima com você.
mesmo porque não me chamo arco e nem você é tesa.
mesmo porque não me chamo barco e nem você represa.


marco/03.10.2009.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

BRASAS E CINZAS

para ser muito mesmo exclusivamente sincero com você, eu gostaria que o mundo se danasse e que restasse só eu e você para decidirmos o bem da humanidade.
[não, não gostei. vamos começar de novo.]
vamos começar de novo outra vez novamente, com o mesmo amor, menos tragédias, mais carícias, menos remédios, mais sensações empíricas. vamos começar de novo? acho que não embora ache que devemos sim. perco o meu não para poder achar você num talvez, talvez num sim.
para ser muito mesmo e o máximo indelevelmente sincero com você: eu gostaria de ver duas pessoas que se amam se reencontrarem e se amarem mesmo que por uns poucos segundos, mesmo que seus impulsos cessassem depois de alguns freimes e isso resultasse em nada, que toda a anterior vida se desfizesse em caspas dissolúveis por qualquer umidade, sob qualquer mal súbito.
seria um retorno para o nunca, uma nova passagem para o nada, uma sede sem secura, uma gastura sem fome.
mas para ser muito mesmo mais do que indubitavelmente sincero com nós dois: como é mesmo o seu nome?

marco/19.09.2009.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O AMOR É ÓTIMO

amor é um bólido. e quando vem e atravessa bem no centro de seus olhos, não tem deus que acuda, não há demônio que lhe dê remorsos.
amor é um boldo. chá que desremói o fígado e os intestinos, verde como a bílis ainda não madura. o amor é um soldo eterno e mal pago, peripécia, estrepolia, façanha e artimanha, o amor é um rodo enredando tudo, toda água: de lágrima, de suor, de banho, de chuva, vai cair no seu ralo.
o amor é um todo que quando quer se faz raso ou não dá pé, o amor endiabrado nem sabe o que quer, o que dá, o que é mel, o que é hortelã, o que é aniz, o que é azedume.
o amor não tem prumo, o amor te persegue, vira lata, enche açude, te agadanha, te faz de pasto e estrume, se desmede, te traz trunfo, te promete mundos e perfumes e te ganha a flor da pele, os músculos, os orifícios, a cabeça vira febre e você é só mais um, é só mais uma, que se abre em gomos em seus gumes.
o amor é sólido, fingido fluido. o amor é inóspito, mendigo ardiloso. pede um tostão quer o bolso, dá um alô, fica amigo. quer seu amor te lambuza com méis e anéis e chuvas de farturas. quer ir embora te joga pro lado, esquece do vale, da fatura, da fratura em tua amargura.
o amor é cólico. infestação infectada de bem querer, indigestão, poder, e ódio. o amor é máximo do abismo que eu quero ter próximo. bicho com raiva humana, cão amestrado pela mente insana, o amor é um espólio que ainda desejo. eu e minha fraca fé e meus esguios medos, eu e meu pavio curto neste velório sem deus ou mais breu.

marco/06.10.2009.
VOYEUR

gosto de te olhar, olho no olho, de longe ou perto, gosto de encarar a verdade de frente, a vaidade de rente, gosto de ter aos meus olhos seus olhos diretos, volúveis, rápidos, piscantes.
gosto de não ter mais para onde olhar que senão para a sua cara, e na sua cara seus olhos faiscantes de segredos e injúrias e volúpias e asperezas que nem ninguém desconfia que hão.
te olhar como aos maciços da serra dos órgãos ou da chapada diamantina. te olhar pelo olho mágico ou passando a galope te entrever entre as crinas. ser um ser não ótimo mas ótico, te reter na rima óbvia que são minhas retinas.
gosto que me enrosco de te ver me dar as caras, às claras, te prever dizer às noites, às escuras, que também és solitária mas não precisas de mim. gosto de inventar mil coisas de doçura, de carinhos, de formosuras, mil e um troços e troças, rispidezes, angusturas, sem te dar, sem me doar, sem me pedires.
como se você as tivesse, como se você precisasse, como se eu me saciasse, como se você realmente existisse.

marco/04.10.2009.

domingo, 4 de outubro de 2009

video

poema de Marco Valença lido por Marilda Ormy. Muito em breve também em http://www.marcovalenca.com/

CARTA & GRAFIA

se cada pingo
da pena
fundasse uma ilha
essa imensa baía
teria dez rosários
cem verbenas
mil arcos de futuro
em uma só página.

se cada ponto
fosse um conto
meu milionário sonho
nos daria
um infinito
arquipélago de alegria.

Vampiro

AMOR É LENDA

o amor quando vem à raia
deixa rendas de espuma nas areias,
prendas de bonança ou de tormentas
e minhas praias
tanto faz as enormes
como as pequeninas
ficam ornadas de bolhas,
sargaços e palhas,
luzem verdades e lendas
mas tanto faz
se depois me virão,
depois do verão,
as incomensuráveis tragédias
ou as pequenas ruínas

novo amor é nova senda
morto amor uma incelença.


"Te amo e o tempo não varreu isso de mim."

marco/09.2009.

QUANDO

quando se inaugura em mim, o amor se faz sempre surpresa: quando não é à primeira vista é porque se disfarça do feliz, hesita na esquina, mas não sem deixar uma pista de para aonde foi, de quando deve voltar, de onde se é acessível de achar.
e é tudo ludo, jogo do possível na mão do imponderável: como hoje escrevo minha obra, sem serventes nem escravos.
mas inauguração que não seja de totem, de esfinge, de bustos de cobre, de obeliscos sem me decifrem; toda estréia em meu coração é benvinda, seja ela obra de ficção ou realmente o amor que me visita.
conte os laços e não faça fita, vem e me acresce, teste os limites, no tanto a dor, no quanto acredita, se pode doer ou ser uma felicidade infinita enquanto dure, enquanto cure o último amor e perdure tão tanto que se faça não primeiro mas único, mais um cisco no meu já sitiado coração ou mais um sítio a ser congregado ao meu íntimo.
quando o amor se inaugura em mim eu amo o perjúrio, aquela razão de quando eu cantei e disse: "não quero mais amar a ninguém, não fui feliz, o destino não quis".... não, não é mais o meu augúrio.

marco/26.09.2009.

sábado, 3 de outubro de 2009

REVÓLVER

você me seduz com palavras, papo sussurrado em termos nem sempre amenos. você me conduz com gestos que sempre não vejo mas estão presentes, vindos talvez de algum sonho, segredo, desejo, memória, nem sempre serenos.
o amor é meu querido dragão que lança chamas e se deita aos pés do cavaleiro Jorge para ser rendido, lanceado, vencido. no entanto se transmuta em outras encantações: vulcões, tisumâmis, ciclones – coisas de bicho esperto. que não só queima mas sopra, mareja, treme e revolve. bicho esperto, o amor sempre teima em revolver.
difícil é quando o amor não permite que se estenda, como um braço de rio, a mão amiga; quando se exime de considerar ouvir, como um sopro do espírito, um dizer de afeto. difícil é sempre, o amor, quando não se faz só de glacê, glamur, glande e grandes lábios. bicho arisco, o amor corre, pára, segue para, volta para, inventa novo caminho e tanto une como separa. bicho exótico, o amor te diz que é um tamanduá ótimo enquanto se disfarça de péssimo ornitorrinco.
o amor é o meu querido fiador. aquele que, como eu, diz: devo, não nego, pago quando puder.


marco/30.09.2009.
DIETA

engordei dez quilos. foi o amor ou a falta de amor o que fez isto? não sei responder, eu que nunca tive balanças em nenhuma das casas que já habitei. será questão matemática, tecnológica, genética, biofisiológica? ou é tudo disso um tudo ou nada disso um pouco? mas eu desconfio sempre do amor. ele é capaz de tudo, às vezes incapaz e de nada. sempre o desprezo quando quer me beijar e o atrelo na vez que cisma de me pisar. por isso desconfio, pavio, corda, corrente, descontinuo de dar o ombro quando o amor quer vir se lamuriar. mas também não dou de ombros se acontece de se aprochegar.

engordei dez quilos nos últimos seis meses. eu que sempre fui magro de rúim ou de ruím, sei lá, e ainda por cima esta máquina corrige meus assentos e não me respeita. não que eu ache um mal este pesar a mais, este é o menor de todos que a vida me trouxe, não que eu ache que é um bem este pesar. só não sei porque agora, nesta época, neste período, neste clima, nesta quinta-feira que não tem nada de especial, assim como a semana e o mês e o ano de dois mil e nove também não se reteve em nada de essencial. só mesmo muito do mesmo e nada de mesmo novidade ou surpresa. mas milagres existem, principalmente para quem neles não acredita. mas é que depois de salgar mil acres de desassossego, ninguém quer mais crer nem em vinagre, quanto mais em azeite.

engordei dez quilos e continuo magro. me falta poesia, careço de artimanhas de Waly Salomão, de perspicácias de Itamar Assumpção, de tragédias de Torquato Neto, de delicadezas de Ana César. eu peço não com fome mas com um fastio de inutilidades: me dêem, vivos, toneladas de motivos, pirâmides de razões, contêineres de emoções, silos de improvisos. não para seguir assim a nossa vilipendiosa vida mas para permanecer respirando dentro da tragédia, para inalar o drama e ser e estar leve e ativo. e ser um ser de dissoluto sucesso. plenamente avesso.

marco/24.09.2009.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

TENOR

enquanto eu canto as minhas músicas, ouço dentro lá de dentro múltiplas vozes que não sei de qual cavernas vem, é uma baderna o meu coração quando escuto e canto as minhas músicas. enquanto eu sinto o ritmo e a melodia e a minha palavra se faz voz, sílaba por sílaba, isso me faz bem. ainda que me morda e retese e grite para dentro e chore lágrimas que nunca chorei. e se disserem que sim, juro que renegarei, ou melhor, vou processar o dono dessas palavras de lágrimas, pois que nunca chorei na vida, nem na ante vida e nem na postem vida eu hei de chorar, não chorarei. por toda lama esculpida, cataratas de camarões na festa bendita, por todos os lemas, bandeiras, causas e guerras perdidas, não chorarei.

enquanto canto minhas músicas, minhas e de meus parceiros - e de outros terceiros, porém minhas - choro de lembrança e de um amor que me anima, coro de prazer naquela linda rima, poro a poro me arrepia e eu sinto mais que uma baía, mais que uma bahia, mais que um umbigo ou uma cidadania, sinto mais que a Guanabara, que a Todos Os Santos, ou mesmo Camamú, sinto desde os intestinos essa agônica beleza que contagia não como sentimento mas como benéfica moléstia, eu soro todo alimento que me dão melodia e letra em harmonia.

enquanto canto minhas músicas eu prezo a todos os santos, todos os deuses, todos os encantos que me fazem ser vivente, que me fazem ser valente, mesmo quando a vida é adversa, mesmo quando o coração fica inquieto, mesmo quando a vida se torna às avessas e o amor se faz perverso.

enquanto canto minhas canções sou somente um poeta delirando melodia e verso, ser sem eclipse ou plenilúnio, não sou aborto e muito menos feto.

enquanto as canções vão rondando os ouvidos e eu destaco as que amo e as que eu não detesto, nem faço o favor de calar ou cometer comícios, só ouço seus sons e me reservo.

mas quando canto as minhas músicas, canções que eu mesmo cometi, em cada sílaba, interjeições e verbos, que medi com parceiros cada sintoma, doença e sugestão de toda e qualquer uma sentença, palavra, locução, louvação ou impropério; quando ouço, e recanto minhas canções, vejo um império: tudo o que eu sempre quis foi cantar canções que me fizessem chorar, rir, pensar, sonhar e desistir. eu sempre me quis ser tanto o vitorioso como o derrotado, frustrado e aprendiz.

enquanto canto belas canções, rindo ou chorando, eu sou feliz.


marco/21.09.2009.

"em mim o eterno é música e amor."
Caetano Veloso.