sábado, 26 de setembro de 2009

SACRO E SIMULACRO

"boy, you gonna carry that weight."
john lennon/paul maccartney

estou vazio. preciso de pontes, viadutos, portos, rodoviárias, rios, estradas, discos voadores, aviões, preciso provimentos, quite de primeiros socorros, uma barata, uma pulga, um gato, um cachorro, novas plantas vegetais e de novos locais. necessito de um princípio. e depois vejo como vai ficar o meio e o fim. se ficarem. por princípio quero dizer um pio inicial, um pontapé, um fogo de artifício. por meio quero dizer seio, ventre, modo de caminhar, gestança e alimentação. por fim quero dizer sonho infinito, projetos para acabar só com a morte, chegar ao limite e resseguir a toda hora. estou pleno de vazio e não me basto. careço de alôs e adeuses, de ôis e 'té logo, coisas que indicam movimento. por isso é urgente me chegarem marés, me partirem fases da lua, me emprenharem sóis, me parirem ventos. por isso é imprescindível me nascerem canções, me morrerem lágrimas, me habitarem novas cismas e cismos, viagens, visagens e vícios, novíssimas práticas, didáticas, léxicas matemáticas. estou vazio, com um cesto cheio de textos, com um gaveta repleta de letras, carregando um andor sem santos, um saco sem fundos, uma vida repleta de lucros e sortes, de prejuízos e azares, tudo mesmo coisas da vida, normais colheitas em várias estações, levo o balaio como quem equilibra o universo e a sanidade, a face clara e o adverso da saudade. quero afirmar que: vazio, quero o cio da enchentes. opaco, quero lume sacro da transcendência. sozinho, quero o calor exacerbado e contínuo de todas as gentes.

marco/23.09.2009.

ECLIPSE

Alguémquem me roçou as fronteiras, retintas cercas farpadas, remissas muralhas varejeiras, meus limites extremos de domingos a segundas-feiras, me tocou com plumas de asas de anjo, com rebites de asas de airbus. Alguémquem que eu não previamente queria, não adivinharia que viesse aqui. Mas o fato é que deu-se este acidente e por ora penso em aquilatar pormenores, possíveis prejuízos, volúveis vantagens.
Eumesmoeu não reconheço Alguémquem. Mas sei que esse sopro de estar, este marzipã de presença, aquele leve arrepiar na minha pele, agora se mostra em marca precisa: não era um querubim, não foi um avião, nem a pomba da paz aterrisou em meu vôo solo.
Foi a tua sombra, encantadamente, que ainda desliza sobre mim, me desvendou e encobriu, e depois se foi: para os seus devidos fins.


marco/21/09/2009.
NESSES TERMOS

sou o gato ou o novelo? e você?
sou sopapo ou enlevo, a linha ou retrós, a seda ou o fuso, a carga ou a carretilha?
sou a corda ou a caçamba? e você?
o nó ou o laço, o pé ou o passo, ou eu ou você? quem sabe o que é rúim ou quem sabe ruím, quem? eu ou você, meu amor ou o seu?
sou pasto ou só lastro da queimada, sou pacto ou rês desencilhada, sou o pacato cidadão ou o citadino pego num lapso e enrodilhado numa camisa de força? vou para o hospício ou vou para a forca?
sou o gato ou o rato? aquele que te lambe ou que te rói, aquele te roça ou o que emporcalha a vida deixando meus restos de fome – rasgados -, de urina – marcados -, meus restos de amor em sangues e fezes, resquícios de lavas ou neves. sou eu o tempo ou o espaço? e você?
quem é você, quem você é?
eu sei que quando eu te falo tu pensas que estou falando com outra. e que quando eu falo para outras tu julgas que estou te falando. e eu me desvairo e saio na rua sem rumo e sem lastro, sempre prestes a ter uma síncope, um infarto; mas sei que isso tudo entre nós é perfume, o odor de nossas carnes é muito mais intenso que qualquer um perfume barato, quando estamos juntos é nosso o mundo, é seu e é meu o todo do tempo e do espaço.
sou eu o camelo ou a água? e você?
sou relevo ou sou traço, o sumo ou melaço, o medo ou descaso, o cofre ou o segredo?
sou à ré ou passo a frente, e você?
saiba: sou quem origina, fonte genuína.
e lógica mínima é termos nós dois, um e outro, em nossos braços.
nesses termos.

marco/19.09.2009.

COMO EU TE DISSE ANTES...

quer me dar um conselho? entre entre meus artelhos, injeção que engesse meus pés e mãos, me deixe suspirar de alívio quando a dor decresce, me livre de todo mal quando todos de tudo se compadecem.
quer me dar um conselho? então antes me aceite vital, fatal, plural, total: como todos esses todos descomunais normais, senhoras e senhores decentes. até que se prove ao contrário. até que os nove fora convença algum otário. me inclua entre os senis e os adolescentes, entre os males de parkinson e os dos tabacos e dos alcoóis de todas as águas ardentes, se quiser me dar um conselho.
mas sobretudo me deixe livre para interpretar os seus anseios. quando disser que me quer bem, eu posso entender: te desejo; se me disser que me quer, bem eu posso entender: te desejo. mesmo quando disser que me quer, bem, eu posso atender: eu te desejo.
às vezes é só uma questão de ponto, de ponto parágrafo, de ponto e vírgula, entre vogais e consoantes.
às vezes é só a vez e a posição da esquina onde o puto do meu amor faz a vida, entre os mortais seres delirantes.

marco/21.09.2009.
ANÔNIMAMENTEAMANTE

alguém me escreve:

"Que bom que retornaste.De volta à caça,cão farejador,cheirando tapetes e cantos empoeirados,ascultando o coração da cidade.Teu sangue renovado percorre os becos,as vielas ouvem teus passos onde bêbados,mendigos e putas fazem o carnaval.Tuas mãos percorrem sensualmente a pele das coisas abandonadas,reconhecem objetos antigos que mofavam à espera.Delimita mais uma vez teu território sagrado com lágrima,suor,esperma.Afia as unhas que a briga é boa,empertiga o corpo,bicho que és.Que bom que te pertences de novo."

alguém que me acompanha alguns passos, outros deixa sem maços de mensagens, alguém que me traça os dizeres, se disfarça em textos breves. alguém que me escreve crente que é o falsário mas que deixa sua identidade explícita em seus rascunhos rápidos e lépidos. alguém que me dá um doce mas quer arrancar a minha pele. alguém que sabe que a saliva das suas palavras me hálita, me gosma, me rescende e me bebe. alguém que sabe que a mim pertence. alguém que de tanta pressa, nem os espaços após as vírgulas e pontos deixa ao texto o que merece. mas eu te entendo, meu alguém, eu te guardo e protejo como um maior bem, somente porque sei porque eu vou e porque tu sabes porque vens. eu também te pertenço, fada, maga, cã, coisa esquezilenta, fado, mago, cão, coisa que me atenta. eu te mereço e, pois, façamos nossa mesa, nosso leito, nossa rede, nossas reticências. somos um alguém e um quem selvagens e pacatos, já além das vertigens virgens, mas ainda acreditando em miragens.

marco/21.09.2009.

sábado, 19 de setembro de 2009

PRÓDIGO

é bom me receber, de novo ao lar, naquele endereço em que entregavam flores e nem só cobranças; de novo ao domicílio de onde fui para perscrutar outros domínios, charfundar lendas e lodos; é bom me ver chegar em casa: para o mesmo corpo um pouco mais envelhecido, para este corpo que ainda tem desejos, parar neste corpo disposto como pasto, ágape na mesma mesa, sorrateiro repouso do guerreiro. é bom te ver, me ver de novo, bem vindo eu a este susto e novo fôlego.
saí de mim sem saber se somente ia ou se iria retornar. saí de repente ou aos poucos fui saindo, nem sei bem, nem bem ou mal se realmente me voltei. acho que sim, acho por esse caminho das pedras muitos sins, vários nãos, tantos tontos talvezes. chego com sede e fome, cansaço e carência, vestígios de ilusões e sonhos que não eram meus mas dos meus devaneios. chego como nego chega: sem alarde e sem surpresa. mas preciso festa, necessito samba e bebidas, batuque e sorrisos, quero verter o que não era eu no que eu sempre fui, ou achava que era, ou pensava que sou: assim um encadear de palavras e versos e cantos de amor e de trabalho um pouco confusos. liberdade é me voltar a mim sem cair em si. já que não saí de férias, não saí da raia, não saí à francesa, não saí sem nada. quando vi, estava perdido numa situação precária, numa solidão ordinária, numa péssima cilada.
estou de volta ao meu antigo leito, feito peão estropiado, feito rio renovado. vim de manso e vim correndo, vim berrando e vim calado. pela calada da noite, pelo dia escancarado. estou aqui para retomar meu pulso, meu direito, meu canhoto, meu futuro e antepassado. estou em mim novamente, me fiando na vida, afiando o arado.

marco/18.09.2009

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

VIVO

Tenho imensa crença em que antes da morte ainda vou ser feliz. Não sei como será lá como for, não tenho designos, caminhos, endereços nenhuns. Não tenho nem mesmo fé, essa coisa para mim sempre enevoada de significados e dificilmente aceitável, em seus termos mais extremos e nos mais lúdicos. Meu acreditar não é místico, é sísmico: coisa que me sacode que nem saco mole que não se põe em pé, coisa que me muda de lugar a qualquer hora e a cada aurora me faz voltar à mesma janela, pé-ante-pé, para ver o sol brotar do nada, do tudo da escuridão, e florescer sorrindo em meus olhos, em meus dentes escovados e límpidos. Tenho intensa força encaminhada no senso da felicidade, por todos os meus nervos, músculos e pele se transporta essa eletricidade boa, essa inequivocada radiação de um poder que constrói, essa quase inevitável potência da beleza, essa inesgotável fonte que arde e sua e verte mais do que desejo, um destino preciso. Sou um homem que trança seus caminhos como um peregrino, sou um homem que se lança mais uma vez ao vôo, levando em si seu ninho, sou um homem prestes a redescobrir a veia por onde flui toda sentença, toda façanha, toda beleza, toda estranheza, toda infinita candura e toda incomensurável tortura, sou um ser levado a termo. Renascido, inicio a minha primeira palavra com um A. Alumbramento.

marco/14.09.2009.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O QUE HOUVE, O QUE HÁ, O QUE HAVERÁ, O QUE HAVIA

quem me visita não traz cerimônias mas não me ilustra as insônias, chega através de recados, nunca em corpo vivo, faz com que eu pague em dobrado suas algaravias, me faz de gato e calçado, cobra minha presença em convites abstratos mas não nem envia uma fotografia. me jaz peso morto mas quer que eu ressuscite lazarentas palavras, sentidos, sentimentos por quem me quis, por quem me queria. quem me visita sempre quer mais do que eu sou. só me imagina, já que nunca me vê de frente, de costas, deitado, sentado, de cócoras; por dentro faz que me conhece mas na verdade ou inverdade me perscruta a resposta através de uma sua pergunta: tudo bem, sim-sim eu te quero junta sempre que pudermos ser convivas entre mil comensais, minha visita, te quero viva e plena em meus sonhos etéreos, mesmo virtuais. quem me visita não se habilita a ser quem habita meu ta-ti-bi-ta-te, não quer minha casa, não quer minha vida, não quer sequer meu coração prestes a um infarte. quem me visita se apraz com signos que não sei de onde vem, ou se vieram, ou se talvez nasceram aqui mesmo: perto da minha solidão amarga, junto de meu amor confessável só à aquela mulher que amo, rente ao meu dia-a-dia de me fazer crente de tudo que sou e de que há mais o que se criar na frente, próximo da loucura e da mínima procura que é: ser feliz. quem me visita me desveste de todas as rimas, me despenteia feito ventania, cria algoritmos que me fazem desver o que havia, traz senhas mágicas para o amor que eu não conseguiria, faz caos, misérias, fraudes, mitos, paz, em demasia. quem me visita não sabe o que eu posso, sabe o que eu não possuo, sabe da minha sadia morte em vida.

marco/11.09.2009.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

OLHO A OLHO, MANO A MANO, ALMA A ALMA

"o meu coração ateu quase acreditou na tua mão que não passou de um leve adeus."
Sueli Costa

um dia, há pouco tempo, escrevi:
tenho anjos que me enviam brisas, ventos, ciclones, cataclismos. tenho anjos que me assopram ciscos no olho, que me alopram com métodos, afazeres, textos simétricos, ricas rimas. tenho anjos que surgem e evaporam, de dentro e de fora de mim. tenho anjos. barrocos, de pau oco, anjos erês, anjos demônios, todo dia, mês a mês, signo a signo, anjos virgens e outros que me afligem pela vida inteira. tenho anjos.

hoje escrevo:
já tive anjos de guarda, arrastando asas para mim. já tive patrões, empregadas, esposas, namoradas, vilões e mecenas, cactos e alfazemas, inimigos, amizades. já tive parte com diabos, já pedi aparte entre deuses. hoje tenho uma parceria. que não me vem todo dia, que é indisciplinada, que cospe grosso do alto quando alça minhas escadarias como uma cavala. mas que faz bem. faz bem o que sabe fazer que é provocar, acarinhar com unhas ásperas minha couraça de defesas, chicotear com língua de pluma minha placenta de ofensas, sabe digladiar comigo como leal inimiga, como amiga fiel sabe que a morte é certa não para um mas para ambos, para todos nós que, em algum momento, amamos. isso sabe muito bem essa minha parceria. se dispor rês e carregar o carro da minha lenta agonia, se impor rei e esmagar com pétalas minhas raras centelhas de euforia. me veio assim feita de jade e trapo, chega sem aviso, entra sem licença, cerca os meus abismos, destrói minhas represas, cheia de majestade e andrajos, prevê o meu passado, relê a minha vida, me faz grafar na pedra do devir certezas inexatas. já tive espíritos santos de ouvido, hoje tenho meus botões, meu umbigo e uma parceria que me agrada.

marco/07.09.2009.

O AMOR DE NOVO

aquele cheiro intenso de terra surrada pela chuva forte em um dia de grande calor, quando brota o amor tem esse cheiro. um sacudimento de barco indo contra as ondas num mar encapelado, o amor quando nasce traz essas golfadas para o meu lago. um fechar os olhos e ver a luz, um abrir os olhos e ter a sensação de sonho, isso o amor faz quando surge. dentro de mim um touro raivoso que se deixa alisar, um potro novo escoiceando os ares a relinchar, um gato encurralado que arregaçou todas as unhas e agora deita pesado e cunha seu nervos numa almofada, o amor quando estréia quer mostrar ao mundo sua odisséia e requer aplausos íntimos, afagos muitos, revelações de segredos, extratos de todos os fluidos exalando seus desejos, o amor exige cuidados dedicados e imensas festas, quando se apresenta. suor frio de emoção e lágrimas quentes de prazer, levitação sobre as camas, passeamentos pelas ruas, de tudo o amor quer provar o gosto e o aroma, do musgo e da amora, da saliva e do soluço, o amor quer provar que é amor, quando se mostra. saber o sabor do estertor e o odor da convulsão, ter o tato nas entradas para as entranhas, a visão dos eleitos que vislumbram maravilhas, quer ouvir a voz dos arcanjos e os sussurros mais sutis e silabados nas bocas e ouvidos, o amor quer se nutrir de toda beleza e ânimo, quando assim emerge. cheio de si, pleno em mim, sangrado profundo, arranhado na pele, curado em apuro, batismado herege, o amor induz espetáculos de sóis e luas, estrelas e satélites, produz em meus olhos luz, em seus olhos febre, reduz a importância da vida à sua efeméride. e aquele senso de levitação, aquela emoção de vislumbrar o oculto, aquela noção do real no absurdo, aquele incontido desejo de fome e de sede, aquele caminhar sem passado, aquele desprezar o futuro, aquele exasperar o presente, tem disso um tudo aquele a quem o amor toca, quando se acerca em volta, quando se põe a frente. um cadinho para quem vê, um caldeirão para quem sente. quando vem, o amor instaura em mim, impaciente e soberana, sua extraordinária riqueza, humildemente, ao meu deleite.

marco/07.09.2009.
SUCO E MUCO

olhar no espelho e ver você: na menina dos olhos, lá está. fazer o quê? dizer que não embeleza meu rosto esta sombra decalcada nas pupilas? lembrar que é de lá que nasce a lágrima de angústia e a de tanto rir? na verdade não vim aqui para chorar. nem de pesar nem de graça. só para escovar os dentes, gengivas sangrando, baixa imunidade; respingar de colírio o glaucoma, visão central; a barba brota grisalha, as lentes dos óculos sujas como um passado infeliz, as orelhas crescendo; ser sabedor de que a verdade não existe e de que o tempo não tolera retardatários. então sim, já te vi hoje, muito bem, sem mais saudade, com tempo ruim todo mundo também dá bom dia.
o amor faltou ao labor e não mandou licença médica, nenhuma justificativa. cortar o ponto, os pulsos ou a tolerância será a maior sabedoria? fazer o quê? trabalhar dobrado, lidar duplicado em miudezas de tarefas, com a vida cicada de bem, lidar com o mal cicatrizado a sal no diário.
o amor fez falta e não mandou licença poética, nem uma onomatopéia. olhar no espelho do meio do dia e saber: só vim aqui lavar as mãos. como e bebo o que posso, carne e folhas, muco e suco, sebo e ossos, sexos e olhos, novos crus e velhos passados. urino e descomo o que é não nutritivo, me desfaço do desnecessário. satisfeito não, empanzinado, tenho muitas palavras para me livrar do amar, amém. assim seja a minha cara lavada, a minha alma enxovalhada, a palma da mão sem destino, a calma de quem está em choque, a marra de seguir falindo, indo, tarde afora, noite adentro.
amanhã o amor vai voltar, mandar aviso prévio, se suicidar em um prédio frente ao meu? a escuridão relampeja e trovoa, coisas de tempestades. fazer o quê? tapar os espelhos com lençóis e lenços, entre os quais hoje não vou dormir, amanhã meu nariz assoar. fechar os olhos.


marco/06.09.2009.

domingo, 30 de agosto de 2009

INCENSO

dona louca que me dá seus pavilhões de orelhas e que me secreta e espelha em estojos de pó de arroz, como se fosse minha, minha cria, minha criação. feita se fosse a rinha aonde eu iria enfim a mim desafiar.
serva troncha, sacerdotisa erotizada que me reza as lágrimas e as risadas nos dias de chuva, nas noites desanuviadas, que me serve não caldos mas saladas, que me serve não carne mas palavras, que me serve de tudo e de nada.
eu te digo: meu berço é no avesso do meu próprio espelho, minha fronte mira a fonte de onde descomeço, meu terço é duplo, é múltiplo, é um arremesso como do pescador a rede em busca de peixe mas também do medo, para matar a fome tanto quanto o receio, que em ambos eu me desmeço , como é clara a noite do inocente vão e é negrume o dia do vil perverso.
te meço: coisa que me surge assim em meu endereço, tem um timbre pálido no destinatário, tem um gesto anônimo, que é meu sinônimo, eu que não dou nome aos uns, aos eles, aos elas, aos eus, aos dois. eu que me subjugo e que me sobrepujo, eu que conto as minhas lendas nesse alfarrábio roxo de tantas incelenças, amarelo ouro de tantos beijos monstros de paixão e desejo e vastidão de amor, beijos com requintes de saudade extrema, de carência de estima, de ternura que ainda procura a sua rima. eu que cato minhas prendas nas migalhas dos olhos de quem me quer mal, de quem me quer bom, de quem me quiser, enfim. eu que soletro uma a uma as letras de um acróstico mas não lhe dou um nome, não lhe dou um fim.
sem ter rumo , de tanta liberdade, o amor me diz tchau e segue puro mesmo manchado de nódoas de mentiras e inverdades, sempre cicatrizando o corpo dos cortes, interrupções e reticências, desmagoando a alma de golpes e pancadas, de seres e de estados.
coiso mestiço de imprudência, virulência e maus modos, cheia de indulgência, curiosidade e vertigem, sua coisa me invade. sei que não te pertenço e não te tenho em mim, é esse nosso laço. você não me persegue e eu sequer te caço. nós somos dois ateus beijando a mesma cruz.
e se você me quer eu te mereço. sou sol e pus, contra ou a favor do vento, sem lenço, nesse documento, te abraço.


marco/30.08.2009.
ME SENTO EM MEU SÍTIO

não demarco territórios. oro a cada arco de passagem que ora surgem em meu caminho. levem a pontes ou cidadelas, transpasso a soleira e sigo sem meias-paradas, ou viro rio que se apega em breve enseada para depois retomar seu caminho, feito tempo que nunca pára. não me valem sacerdócios ou vargens de outras pragas. meu bem vem de muito além, de cismos matusalém, desdém não me traz mais mágoas. não me falem de equinócios, eclipses, caleidoscópios, sapientíssimos ou ignóbeis. minha sanha é permanência, sobreviver ao amor, que faz de besta os letrados, de vivos os inanimados, que faz de ralé os nobres. em minha trilha levo matilhas e não varas, dou aos meus cãos o meu osso, deixo desperolados os porcos. nunca fui soldado a nenhum ferro ou plataforma. sou meu escravo sendo meu dono, senda de toda minha colheita e estorvo. não é de mim nenhuma inveja, raiva, vingança. guardo em mim uma réstia de paz interna, que me governa através da miséria, máfia, desesperança. nunca fui de excelências e não é agora, neste momento de excrecências que vou por minha palavra a pouco. minha palavra sempre esteve além das regras, minha palavra sempre esteve em jogo. minha palavra respira nos bares, brilha nos altares, bica nos pomares, busca em todos os lugares os que possam ser lares para a poesia, para a palavra bem dita. amor é palavra bendita. te amo é certeza em minha vida. não suporto oratórios. deixo para outros os supositórios.

marco/30.08.2009.
A DESCOBERTA DO SEMPRE

cansei de manhas, façanhas, mantras, mientras, mentiras, acuidades, meias verdades, calças completas, sanhas, cocacolas, fantas, meças tamanhas, sarros que não arranham a minha lusitânea e africânea e indígena necessidade simples, lógica, imensa, minha carência extrema de te adorar. de te amar perante todos os deuses: dias-semanas-meses-anos, além de todos os planos, sempre te amo.
cansei de besteiras e semi bandeiras em um mastro a meio pau. e de cerimônias, banheiros de bares cheirando a amônia, meninos bonitos querendo maconha, meninas lindinhas querendo carona para a overdose. tá tudo isso na rua, tá tudo isso nos jornais, na internet, em close nos vídeos do you tube, tá tudo isso mais do que normal.
mas o diferencial não é aquela peça do automóvel que, quebrada, não deixa ninguém dirigir. mas o extraordinário é que um ídolo que não se deixa adorar não deixa um fiel ser feliz. e se eu te adoro e você, minha santa, nem liga assim, você nem mesmo vai saber o milagre que perpetrou em mim.
cansei de falsas miragens mas sei que em muitos desertos ainda existem oásis. eu cansei de prantos e tangos e de viver molambo, rolando com as pedras por aí. eu cansei. I can say: my life is in your hands. ah tuas mãos, onde estão, onde está o seu carinho, onde está você?
cansei de melodramas baratos. quero o que me é mais caro. quero um ser novo você. quero ser novo em você. quero um novo você.
e eu.

marco/30.08.2009.
JUSTO EU

como alguém acha justo que eu traga a vida para a poesia e julga detestável levar a poesia para a vida?
é claro que verter o diário nos poemas incorre em uma certa feição autobiográfica que, na verdade, nem sempre é verdade. mas e daí? e se a poética escorre para o cotidiano corro o risco de falar e agir como personagem de ópera, cantando todas as sílabas da vida, mesmo as palavras indecentes, mesmo as expressões dúbias, mesmo as exclamações sussurradas entre a nuca e o ouvido. e daí?
como alguém acha justeza na poesia e justiça na vida?
de justa a vida não tem nada, e que saia justa pode vestir a poesia? basta ver as multidões de desmazelados pelas ruas, dia-a-dia, não só os miseráveis mas também os desiludidos, não somente os desnutridos mas igualmente os inconsoláveis. em justiça a vida não faz jus a nada. em justeza a poesia há muito já perdeu a escravidão e por isso ainda rima, insiste e metra, e sempre versa sendo somente sua própria presa, líbera sem exatidão.
pois é, e então? e pois então, é: se vivo da poesia a alegria - o amor, o sorriso e a flor – também dela estico o fio da mortalha que veste o drama – o amor, o mortiço e a dor – e deste jeito se forma um indivíduo - justo de justeza e de justiça - uma criatura, um elemento, um exemplar a mais da raça humana.

marco/30.08.2009.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

SÃO AMOR

entre nós
não haverá solidão
pois que
dizemos sim
a alguns longos silêncios,
concordamos
com dilúvios e incêndios,
elementares,
sabemos:
nos amamos há milênios
sem hesitação.

* * * * * * *

é bom saber que não há mais distância entre nós. estamos sempre separados por uma eternidade de palavras mal trocadas. pelas tragadas do meu fumo e os tragos do meu álcool. bem à beira de sons malditos, fumaças e hálitos estamos nós, imóveis, não mais distanciados. sempre separados pelo mesmo número de palmos, sempre unidos pelas mesmas milhas de quilômetros, somos um termo perto do exato, somamos o muito e o pouco e o resultado é que entre nós só há um lapso. você quer possuir meu juízo mas não quer ser minha dona, quer partir sem compromisso mas não quer ser quem abandona. eu quero a presença e a carícia mas também a solidão mostrando as vísceras, um mar de carnaval vindo a tona e uma poça sem reflexos de delícias. é bom saber que entre nós não há mais drama ou menos comédia. não tem menos nada ou mais tudo. não há mais depressão ou menos euforia. não tem menos tempo ou mais espaço. chegamos a um ponto: somos dois pontos milimétricamente separados, anosluzmente unidos. não mais. nem menos. estamos sempre unidos por uma infinidade de bons pensamentos nunca revelados. por cargueiros de contêineres de desejos e anseios e gozos sempre em viagem, nunca aportados. dividimos o pouco e o muito e o resultado é que entre nós, não podemos desatar os nós e não sabemos desfazer os laços. chegamos a um ponto que não é cursivo e nem é parágrafo. são dois pontos: eqüidistantes entre o não e o sim. não estações entre maio e agosto, não constelações entre gêmeos e leão, sim chuva e sol entre agostos e maios, sim sóis e luas entre leões e gêmeos. tudo de todo o errado e o acertado entre a fêmea macha e macho fêmeo. animais com instintos sazonais, tanto se habitam como se nomadeiam, por aí, por aqui, por lá, por acolá.
é bom saber que não há mais ou menos movimentos entre nós? é dom sentir que está tudo na mesma e que esse mesmo não é plenitude mas é redundância? e o tom de voz não se recata nem se alteia pois que não há gás para a memória e nem há brisa para a esperança? é bom viver assim, donos de todo um universo não mais infinito nem eterno, simplesmente amparado no que somos?: dois pontos.



marco/28.08.2009.

PODE ME CHAMAR DE VOCÊ!

quando falo de você, quando escrevo pra você, eu sôo e firmo um ele, uma ela, quando perpetro a palavra você. penetro numa atmosfera imprecisa onde voam um ela, um ele, um tu. onde se perpassam os gêneros e os sexos, sem que se tornem genéricos ou assexuados. o que vale, além do suorento sentimento das palavras ditas, grafadas, o que serve é o ludo. o que me vale as penas, o que me serve a mesa farta de carnes de aves, mamíferos, moluscos. é quando só encontra lodo em torno que se sabe se o homem realmente tem sede. vai sorver do barro o líquido e transpirar, sobrevivente, poeira. é ludo real quando trato palavras, tateio imagens, tempero ambientes, perfumo sentimentos, desfruto paladares, ouço e revelo segredos.
quando crio um você, quem sabe você é ela, quem sabe você é ele, quem sabe você é mesmo você? tu não és. porque tu é singular demais pra mim. pra nós, se você bem me entende.
mas o que me leva ao jogo, ao fogo de forjar armas temperadas, ao sopro de afiar flechas imantadas, ao logro de escudar tempestades com palavras, o que me leva ao infinito acima dos céus e ao fundo do fosso dos poços, é o poder. é poder com palavras comer um tremoço ou domar um potro. é poder discernir entre trocos e troços. é poder descobrir a ultimíssima verdade ou reaver a paleontológica farsa. mas sobretudo é poder ser você. pois quando me transmuto de um em muitos, sou o seu senhor e súdito, o desmazelado e o bem afortunado, o primeiro e único e o antepenúltimo.
quando sou você posso me amar como você nunca me amou, posso me falar coisas que você nunca pensou, posso decidir querer ser tua, sempre, e eu ser sempre teu, quando eu sou você. e não importa se a rima é rota, se a rota é certa, se é a última gota, se há mais promessas. tudo é mais que o impossível, todo amor é vencedor, seja herói ou vilão, honesto ou bandido, quando sou você.
quando sou você eu falo e escrevo tudo que eu quero ouvir, do modo que eu quero ler. escrevo e falo tudo que eu detestaria receber, do jeito mais rude que eu não quero ver. é assim quando quero ser você.
sei dos riscos ilimitados, tanto os de vida e morte quanto daqueles das sobrancelhas. sei dos deleites do paço e que algum dia posso perder o compasso e não conseguir mais traçar resmas de linhas, não entoar mais minhas cantigas, não acender com meu sopro as mesmas velhas centelhas. mas olho no seu olho, vejo uma página em branco, me sinto um deus. escravo de minha criação.
quando crio você, é a minha imagem, semelhança, perfeição.


marco/28.08.2009.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

OVERDOSE

amor demais
é um ciclone devastando tudo
o que havia, o que haveria
um tornado extinguindo o mundo
que amei, que amaria
e eu mudo
amando demais
dono do dano
senhor do quê
em segredo
em mim existia.

marco/24.08.2009.
EXTRA

não, não basta meu nome. quero te marcar de outros e muitos e vários e tantos jeitos, modos e formas que você nem pode, com ou sem certeza, se quer ou não quer, nem sequer imaginar.
você a quem não dei o meu nome, e nem você quis. você a quem não dei nenhum filho, e nem você quis. você por quem tenho amor, carrego amor, possuo amor, e até que você quis. quasímodo poeta, eu é que não soube como ofertar.
não, não basta seu nome. quero é me marcar fatal, ferrenha e definitivamente com você. aquilo que foi sonho é cimento, o que foi corpo hoje é peso nos ombros, o que foi alma geminada é vento zumbindo pelas entrefrestas da portas e janelas, fantasmagóricamente.
não, não me basta esta overdose. ainda quero mais de você. viciado e dependente, penitente sóbrio e carente, ainda quer mais de você, mais de uma inevitável precoce morte, isso que quanto mais me emprenha mais me fode.


marco/24.08.2009.
VIRAMUNDO

”quando a gente tenta de toda maneira dele se guardar
sentimento ilhado, morto amordaçado, volta a incomodar”
(Clodô/Clésio)


Geralmente meu amor opera silencioso. O que não quer dizer furtivo ou escuso. É só uma questão de temperamento. [Como disse o Walter Franco: tem certos artistas (pessoas) que parecem um cisne deslizando em um lago, aquela mansidão, o movimento plácido, cálido, perfeito; mas se você olhar por baixo d’água, as patas estão estabanadas a mil, para conseguir aquele efeito]. É dessa natureza, é do silêncio que o meu amor se gera. Logo esse que se destempera num repente e briga e xinga e berra, é esse mesmo amor que não se amansa e é feito de promessas. Vãs e vis muita vez mas vai e vem removendo montanhas por sua presença, por sua pessoa. Remoendo mágoas mas tentando transformar as tábuas dos mandamentos em coisa que se prestasse mais ao amor que à vingança, mais ao sabor que ao insosso, mais ao saber que ao tabú, mais ao bem querer que ao mal poder. É da natureza o sonho e a desilusão, o aguaceiro e a seca, catorze bis e asas de cera, meia vida e inteira morte.
É sem sutileza que realmente gostaria de te escrever. Sem justiça mas com justeza, com pés rachados mas com realeza. Só para ver se você merece, se te apetece a mentira justa desse que te jura e não é de morte, desse que te mira e não é com tiro. Só para ver se você se esquece, se se compadece com a verdade crua desse que te caça mas não é pra corte, desse que te acua mas não põe mordaça. Quando é legal meu amor se esmera em gentilezas. Quando perde a lei ele se ferra em cravos que ninguém inveja. Não te quero com guirlandas de bridas, não com colares de viramundos não te quero. Minha. Já basta minha senda, eu sendo seu súdito. Não te quero minha. Te quero sua. Sua todo o preciso para engendrar a vida, ferve nos poros tudo que se fizer necessário para um novo amar. Não te quero mais. Me basta ser teu, demasiado para não querer saber os seus rumos, roteiros ou descaminhos.
Não quero saber aonde ainda, obrigatóriamente, você vai me levar.


marco/24.08.2009.


p.s. - conto verdades sem maldade em seus ouvidos, aos sussurros / canto mentiras salivadas sem tortura em suas orelhas, aos gritos.